Julho 13, 2008
Julho 5, 2008
Se as noites envelhecessem
Manoel Caixa D’Água¹
“Se as noites envelhecessem,
se os meus olhos cegassem,
se as fantasmas danças
em blocos de neve
para que me ensinassem o caminho
por onde eu caminhei.
A cidade sem porta, as ruas brancas de
minha infância
que não voltam mais.
Se minha mãe se abruma,
se o mar geme,
se os mortos não voltam mais,
se as matas silenciosas
não recebem visitas,
se as folhas caem,
se os navios param,
se o vento norte
apagou a lanterna,
eu tinha nas minhas mãos somente sonhos.
Eu tinha nas minhas mãos somente sonhos!”
¹Manoel José de Lima
* João Pessoa, PB - 1931 d.C
+ João Pessoa, PB - 28 de Março de 2006 d.C
Poeta popular, cordelista, cantador e repentista. Considerado ao lado de Zé Limeira um dos mais importantes nomes do surrealismo poético brasileiro.
(Fonte: http://mesquita.blog.br/versos-na-tarde-manoel-caixa-dagua).
Julho 1, 2008
Junho 3, 2008
Já que faz o maior tempão que a inspiração não bate pra eu escrever por aqui, resolvi, então, falar de sexo, porque - sabe como é, né? - ninguém precisa de inspiração pra falar sobre o tema. Depois de tocar no Dia da Prostituta, a convite da galera da Agência Ensaio (http://www.agenciaensaio.blogspot.com), falar de sexo é quase inevitável. Mas falemos também de História, já que, claro, ninguém precisa abdicar da cultura só porque vai lidar com os instintos mais intensos e profundos do corpo e da alma.
A questão a ser debatida é a seguinte: a sexualidade convencional serve de estrutura celular à sociedade capitalista? Sempre achei esse tema altamente interessante. Discorramos sobre ele.
No início, um pouco depois de deixarmos de ser macacos* pra virarmos essas coisinhas bonitinhas que somos hoje (ou, para os criacionistas, um pouco depois de o espírito do Senhor parar de pairar sobre as águas), e um pouco antes de descobrirmos a escrita, passamos pela era que se convencionou chamar de Pré-história. Como sabemos, esse período se subdivide em Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais, cada qual com características próprias da evolução da humanidade e, obviamente, da sexualidade humana.
Além do fato de que o fogo e a roda, ainda hoje são usados metaforicamente com conotações sexuais (piadinha infame!), o Paleolítico tem uma importância muito maior do que se pensa para a compreensão da sexualidade do ser humano. Segundo os historiadores e os sexólogos, naquele período, a experiência sobre como os instintos reprodutivos eram percebidos pela sociedade operava de forma bem diferente da atual, em vários aspectos. Primeiro porque o homem era nômade e sua vida estava inteiramente submetida às vicissitudes da natureza. Em virtude disso, não existiam as famílias nos moldes que temos hoje: pai, mãe e filhos. Tal estrutura sucumbiria à primeira intempérie natural. Os homens se aglomeravam em grupos maiores, ditos clãs. O sexo era feito entre indivíduos pertencentes ao mesmo clã e, na família, apenas a figura da mãe era conhecida - não a do pai, (até porque o pai podia ser qualquer um do clã, já que inexistia a monogamia como princípio). Na verdade, a participação masculina ainda era ignorada e só viria a ser observada mesmo, com a sedentarização do ser humano, a partir do Neolítico.
Por causa da inconsciência do papel masculino na reprodução, diversos pontos podem ser observados a respeito da vida humana àquela época. Em especial, o fato de que se tratavam de sociedades matriarcais, em que - diferentemente da sociedade que se levantou a partir da Idade dos Metais - a mulher ocupava posição social central. Isso se deu, sobretudo, porque sua figura fora diretamente associada à da fertilidade e da prosperidade, conceitos essenciais a quem dependesse diretamente da natureza para sobreviver.
Desconhecida a contribuição masculina no processo de reprodução, o qual era percebido como algo extremamente valioso, até porque filhos certamente eram bênçãos quando se necessitava da vida em grupo para garantir a vida no mundo, ainda se pensava o procriar como um fenômeno espontâneo. Consequentemente, a mulher era compreendida como um ser divino, uma dádiva à humanidade, por, inexplicavelmente, ser capaz de gerar filhos e prover a manutenção da espécie.
Daí porque inexistirem relatos de pesquisadores que tenham encontrado deuses do sexo masculino que datem dessa época. Talvez até houvesse, mas certamente a presença feminina no ideário metafísico era absolutamente predominante. A imagem das mesmas - tal qual a da Vênus de Millendorf - provavelmente admiradas e desejadas àquela época, era bem diferente da imagem que hoje se valoriza e se tem como o padrão de beleza tão conveniente à indústria de cosméticos. Aquela deusa, esculpida em pedra, possuía algumas porções extremamente volumosas de gordura na pele, inclusive nos seios, vulva e barriga, de onde se crê sua estreita relação com a fertilidade, sendo muito provável, inclusive, que sua forma representasse o sentido estético predominante ao homem pré-histórico. Uma mulher corpulenta, forte e que representasse segurança à preservação da prole.
Tal qual os demais mamíferos de médio porte, é presumível que o ser humano fosse também poligâmico, uma vez inexistente a estrutura familiar no formato que hoje conhecemos, e que eventualmente desse razão à monogamia.
No entanto, é a partir do momento em que o homem abandona a vida de nômade e estabelece morada em determinado ponto territorial que passa a exercer o domínio da agricultura e da pecuária, determinando-se definitivamente a propriedade como base das sociedades humanas. É provável que tal fato tenha se consolidado de forma aproximadamente simultânea em vários pontos do mundo. Em certos lugares mais cedo, noutros mais tarde, mas a tônica é que a procriação sempre tendeu a servir à necessidade da defesa do patrimônio do clã diante das ameaças por parte de outros grupos humanos. A figura do macho, entretanto, que até então ficara relegada a um segundo plano, passa a se colocar como essencial à sociedade que se levanta, sobretudo em função da força física para proteção da propriedade - atributo que a natureza não proviu à figura feminina.
O Neolítico é o período em que o homem fixa-se num determinado território e sua sobrevivência é assegurada pelo domínio da agricultura e da pecuária. É provavelmente em virtude das práticas pastoris, a partir da observação dos animais domesticados, que o homem se vê co-autor da reprodução. O carneiro cobria a ovelha e depois de algum tempo o rebanho era infestado de carneirinhos e ovelhinhas. O boi dançava o créu na velocidade cinco com a vaca e eis que surgiam os bezerrinhos. Essa descoberta foi determinante para o declínio da sociedade matriarcal.
Com a Idade dos Metais, a descoberta de materiais aptos à guerra coloca o homem como foco central da sociedade e desloca a mulher a um posto secundário. Não coincidentemente, é deste período que se vê a sedimentação da propriedade privada como fulcro da sociedade e a curva da acumulação do capital toma feições exponenciais.
Analisando a sociedade atual, creio que caminhamos para o retorno às estruturas primitivas. Embora permeada de traços antagônicos, típicos de sociedades em transição, a nossa é uma sociedade em que a figura feminina, com a descoberta da pílula anticoncepcional, com a reafirmação social e sexual da mulher (elas também querem ter orgasmo!), com a independência financeira, e mais com o simbolismo que é o culto à imagem da fêmea nas tevês e revistas (muito embora distorcida pelo já arcaico olhar patriarcalista e consumista que guia os meios de comunicação), assim como a decadência de tabus como virgindade e adultério, já é visível um outro rumo para a sexualidade contemporânea.
Fica a proposta para as mulheres que ousarem escrever um outro horizonte: não devem existir sexos opostos. E se a gente brincasse de sexos complementares?
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* Errata: o homem não é descendente direto do macaco; apenas possui um ancestral em comum.
Abril 1, 2008
Brasil: nunca mais. (Petrópolis: Vozes, 1985. Arquidiocese de São Paulo).
A assistente social Ilda Brandle Siegl, de 26 anos, declarou em seu depoimento no Rio, em 1970:
[...] que disseram a ela que a tortura ali era científica, não deixava marca; que foi espancada e despiram a depoente e provocavam choques elétricos; que, enquanto um aplicava choque, o Dr. Mimoso abanava a depoente para que a mesma não desmaiasse; que havia pausa a critério do médico; que aplicaram choques nos seios, no umbigo e na parte interna das coxas; que, após, foi jogada numa cadeira, já que não podia ficar de pé; [...].
[...] a estudante Iná de Souza Medeiros, de 21 anos, contou ao Conselho de Justiça: [...] que após, trouxeram Milton despido, pendurado no pau-de-arara, para que a declarante visse o seu estado e dizendo que com ela, fariam a mesma coisa e, constantemente, os torturadores proferiam nomes contra Milton a declarante; [...] que essas molas levaram ferro na unha, choque elétrico e tentativa de afogamento que consistia em tapar o nariz da pessoa e jogar água em cima; [...] .
Março 29, 2008
Olá! Divulgo a próxima sessão do CINECLUBE JOSÉ DUMONT:
Onde: Sala de Vivência do Cefet-PB
Quando: 01/04 (próxima terça-feira)
Horário: 13h
Entrada: é de grátis!
Filmes: Botinada! A origem do punk no Brasil | Dir.: Gastão Moreira | | Brasil| 110min
Nesta sessão, estarão presentes várias pessoas do movimento punk local, com exposição de zines, Cds, Vinis etc.
Espero você lá.
Cineclube José Dumont
Março 25, 2008
The New Les Demoisélles d’Avignon - Luis Gispert
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Março 21, 2008
Não é meia-noite ainda, mas hoje a reflexão chegou mais cedo.
Como se não tivesse nada mais para fazer (e olhe que tenho!), fico a passear pelas palavras de amigos e de estranhos por entre blogs ligados a blogs de amigos e estranhos. Praticamente sem querer, filosofo. Pensava em refletir sobre a palavra, a linguagem, seus limites e suas potencialidades, mas desengana-me a temática. Prefiro trocar de tema; estou tão libertário hoje. Não vamos falar em prisões.
Para azar das minhas tantas ocupações, por hoje o passarinho de minh’alma me transportou para entre músicas, poesias, crônicas e fotografias virtuais. Hoje fui longe. Ligando-me a tudo isso, os novos parceiros da meia-noite: os blog’s.
Depois de horas diante da tela do computador, percebi que fiz mais do que simplesmente manusear mouse e teclado. Explorar a rede é participar do mundo. É construir, criar, criticar, surpreender-se com o homem, decifrar esfinges, rever posições. Mais ou menos como vestir aquele sempre guardado e adiado para mais tarde chapéu de Indiana Jones e sair a explorar pirâmides, ilhas, cavernas e, mais que tudo, devorar tribos inteiras.
Pulo por entre versos. E vago saudável e irresponsável atrás do nada, perdido no buraco negro do conhecimento. Procuro apreendê-lo mais a fundo, mas sei que a poesia maior do mundo está muito mais em tocá-lo com as mãos e sentir de perto o seu bendito e maldito cheiro de gente.
Mas o cheiro de gente ainda está por aí, na rede, em algum lugar.
(A propósito, a frase mais bonita de Lenine: “Se a rede é maior do que o meu amor, não tem quem me prove“).
Cá na internet, parece que existe uma espécie de entrelaçar virtual que cria pontes e religa culturas, que por si sós, já se ligavam de antes, pois se cruzaram nalgum momento da História. Porém, agora se cruzam de novo, e recruzam, multiplicando possibilidades.
Claro que falo isso com algum cuidado para não parecer que o mundo globalizado é lindo. Hoje não me encontro lá muito apaixonado pelo ser humano. Hoje quero mesmo é que a humanidade se exploda, ora. Não venho exaltar as benesses do mundo global e esquecer que com base no individualismo que lhe dá substância se pode explicar a indigência daqueles que, minutos atrás, estavam a dormir em minha calçada, enquanto deixava meu computador em espera pra ir ali comer um cachorro-quente, no mundo real. É nesse mundo concreto que a fome mostra o rosto.
Apesar de tudo, ainda acho que a essência própria da rede, sua cor, seu sentimento se situam um tanto distantes do estranho lado perverso do homem de carne e osso.
Por aqui só aflora o que é belo.
Ao menos virtualmente, quase não existem mais distâncias físicas e sociais. Aparentemente todos podem chegar onde querem.
Recentemente, meu irmão e eu fizemos um mapeamento de blogs de música alternativa, a lista dos quais adiante repasso aos interessados. Por acaso, deságuo num blog sobre a discografia completa de Violeta Parra. Mais à frente, revejo um blog antigo de world music, de que nem lembrava mais. Democracia? Não, enquanto houver fome, mas meu lado libertário insiste para que eu creia nela mais perto.
Aliás, como disse Chico César, noutra oportunidade, quando ela chegar, “não esperem espetáculo, festinhas de lançamento, tititi, roupinha da moda, videoclipe, óculos de ciclista. Não há tempo, dinheiro, gente nem vontade de fazer essas coisas”.
Sempre pensei longínquo o dia do acesso pleno às culturas de todos os povos. Certamente, naquele dia tão distante, cantariam bem alto nas rádios - para além da feia música americana imperialista - também os sons alternativos, que se fazem no Peru, Nicarágua, Bolívia, El Salvador, Mali, Nigéria, Bósnia e Afeganistão, e também os que fazemos nós, com nossa cara e que, entretanto, desconhecemos.
Hoje vi que preciso repensar a crítica. Talvez o tempo da democracia cultural esteja mais próximo do que eu pensara. Obsoleto, eu é que ainda não tinha me dado conta. Concentrados os meios de comunicação massiva, em mãos promíscuas, precisamos tratar de providenciar formas outras de democracia. Formas nossas.
Formas e não fôrmas, galera: não vamos falar em prisões.
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A LISTA. Dicas para pesquisar. Vá baixando os CD’s disponibilizados, aleatoriamente, e se deixando encantar.
Se possível, compre um HD maior…
1. Um que tenha: http://umquetenha.blogspot.com/
2. Brazilian Nuggets: http://brnuggets.blogspot.com/
3. Cápsula da Cultura: http://www.capsuladacultura.com.br/blog/
4. Buena Musica Social Blog: http://buenamusica-blog.blogspot.com/
5. Perrerác: http://perrerac.blogspot.com/search/label/Inti-Illimani
6. Violeta Parra: http://discosvioleta.blogspot.com/
7. Eu ovo. http://euovo.blogspot.com/search/label/S%C3%A9rgio%20Sampaio
8. Música Social: http://musicasocial.blogspot.com/
9. JazzyMusic: http://jazzymusic.org/
10. Bolacha Sonora: http://www.bolachasonora.blogspot.com/
11. Abracadabra: http://www.abracadabra-br.blogspot.com/
12. Terrorista Dub: http://terroristadub.blogspot.com/
13. Vila de Patos: http://www.viladepatos.blogspot.com/
14. BR-Instrumental: http://br-instrumental.blogspot.com/
15. Fonalidade Secarrão: http://www.fonseca-nordestinismo.blogspot.com/
16. Durango: http://durango-95.blogspot.com/2006/07/byografia-vitor-ramil.html
17. Feijão Tropeiro: http://feijaotropeiro.blogspot.com/
18. Penca de Discos: http://pencadediscos.blogspot.com/
19. La Cofradia: http://aguantelacofradia.blogspot.com/
20. Música Paraense: http://www.musicaparaense.blogspot.com/
21. Som Barato: http://sombarato.blogspot.com/
22. Babe(B)logue: http://babeblogue.blogspot.com/
Março 11, 2008
Preso o mandante do maior assalto a banco da história do Brasil.
Nada menos que R$ 164 milhões do cofre do Banco Central, em Fortaleza.
O assalto foi uma verdadeira operação de cinema. Um túnel por baixo da terra, com 80 metros de comprimento e 70 centímetros de espessura, (com iluminação e tudo!) que saía do banco e ia dar numa lojinha que vendia grama sintética.
O circuito interno de televisão não gravou imagens.
Envolvidas diretamente com o furto mais de 30 pessoas.
A polícia federal pode até ter prendido o mandante do crime. Parabéns pro serviço de inteligência. Mas, sem dúvida, vão ter que soltar o cara, que está visivelmente acobertado por uma excludente objetiva de punibilidade: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.


