Bêbados. dezembro 23, 2007
Posted by Pablo in Crônica, Fotografia.trackback
Tarde da noite e maltrajado, um bêbado me bateu à porta.
Confesso que nunca me dei bem com o álcool. Sempre me revoltou comparar o número de vítimas letais de doenças hepáticas e acidentes em estradas com os índices de lucratividade das grandes empresas exploradoras desse mercado.
Contudo, o mínimo de compreensão do alcoolismo como doença de que padecem os indivíduos, reféns do descontrole total de seus próprios atos, sempre me fez, ainda nos casos mais complicados, respeitar-lhes a dignidade. Não foi, porém, o que sucedeu com o meu visitante.
Ele pedia comida. Certamente morreria engasgado com aquele resto de cuscuz que me sobrava na panela. Mulheres, pouco dinheiro, monografia por fazer: com certeza eu já tinha problemas demais. Não queria ainda responder por tentativa de homicídio. Disse-lhe um “não” tão seco e ríspido que ele, mesmo embriagado, não ousou me incomodar mais.
Aquele pobre alcóolatra semi-cerrou os olhos, baixou a cabeça e engoliu as dores da vida. Na verdade, o silêncio que pairou me disse mais do que poderia dizer qualquer sociólogo. A mim, este imbecil de classe média, a aprender com um bêbado de rua. Estava completamente alcoolizado, é verdade, talvez dormisse na rua aquela noite, mas não preservava a humanidade? Pelo menos foi o que me indagaram seus olhos. Teria família, o desgraçado?
Virou as costas e não me agradeceu. “Bêbados não agradecem”, pensei eu. “Muito menos quando se nega o que eles pedem”. Sorri, diante da mediocridade do meu pensamento. Fechei o portão, antes que ele voltasse.
“E eu vou morrer de fome, doutor?” – não sei se foi o homem ou a minha consciência.
Pablo.
Sei bem como são esses sentimentos, mas eu teria dado o prato de comida, nem que fosse um biscoito seco. Ao menos ele estava pedindo comida e não bebida, o que é bom, sinal de que o mal era realmente fome. E mais uma vez eu entro em choque comigo mesma e com o que eu acredito, mas esse mundo é tão contraditório, que eu também não posso me eximir de ser.
Pablito! Eu li a primeira versão, a que tinha a frase do desencargo de consciência, por que modificou?
=]
Mas, falando literariamente, lembrou-me um jeito de escrever de um texto, um conto de Lygia Fagundes Telles chamado “A Barca”. Muito bom, o seu e o dela. Um abraço.
Gil,
na verdade, esse foi só um bêbado de ficção que eu inventei. Misturei com alguns fatos da vida pra deixar mais real. A intenção era tratar com ironia (e não sem preconceito) a piedade e o remorso e, lá no fundo, as contradições do sistema capitalista.
Tirei a última frase que dizia algo assim: “Por via das dúvidas, corri ao computador pra escrever esse texto e fazer as pazes comigo mesmo”. Tirei porque acho que esse impacto remorsivo que eu queria dar já tava completo na frase: “Não sei se foi o homem ou a minha consciência”.
Também achei que ficava parecendo que eu estava incentivando a cara de pau de estar bem consigo mesmo, sempre. É que eu acho que tem hora que o certo é ficar se doendo por dentro.
Valeu pelos elogios, Gil. Não conheço o texto da Lygia Fagundes Telles. Vou pesquisar aqui.
Xero.
Excelente texto, Pablo.
Claro, preciso, irônico na medida exata, incisivo. Não há palavras desnecessárias. Muito interessante sua visão do incidente como um todo, as impressões dúbias em relação a si próprio e ao bêbado.
A combinação sucessiva de sensações foi tão bem feita que a estória flui como líquido. A crítica ao álcool, à lucratividade capitalista, à profusão de problemas que nos infesta a vida, tudo muito bem abordado.
Mas o alcance da humanidade do “bêbado”, tido como um pacote débil desprovido de alma e cérebro, parece-me o segundo momento mais importante do texto, porque suscita emoções até mesmo no leitor de mínima sensibilidade.
Só perde para a frase que, para mim, é a mais bem colocada da crônica:
“E eu vou morrer de fome, doutor?” – não sei se foi o homem ou a minha consciência.
Lembra-me o romance psicológico de Dostoiévski (sinta a magnitude do elogio), em que a problematização da alma – a qual é inerente a contradição -, os conflitos interiores, a dúvida, a inquietação, assumem importância capital.
Penso que seja o melhor estrito que já li de sua autoria.
Abraço, moço.
*Ei, posso adicionar teu blogue aos meus favoritos?
Bom,
Pode adicionar aos seus favoritos sim, Clarrissa, se quiser. Não faço o mesmo com o seu e os tantos outros tão interessantes que achei por não saber ainda como fazê-lo… Assim que descobrir, o Miolo de Pote estará adicionado.
Obrigado pela generosidade do comentário. Amigos são sempre suspeitos…