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Ou Negro ou Europeu. Janeiro 5, 2008

Posted by Pablo in Crítica.
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Acho que tem alguma coisa errada com a auto-estima do artista brasileiro. Veja aí se eu não tenho razão.

Outro dia estou eu, a assistir televisão, na incansável busca por algo interessante pra assistir na minha cara TV a cabo e o que é que me aparece? Um raro debate sobre a escassez do espaço para a mulher negra na televisão brasileira. Que bom. Tema interessante, tempo disponível, vamos assisti-lo.

O programa já começa com denúncias contra o racismo praticado pela TV Globo, que só mostra negras no papel de empregadas domésticas e exercendo funções subalternas.

Depois, duras críticas igualmente pertinentes à hipocrisia da TV Record, que, ao fingir ter dado aquele rodopio por elevar o negro ao status de protagonista de novela, ao transmitir “A Escrava Isaura”, esquecera-se tanto do fato de que Isaura era branca, quanto de que o SBT, com ”Chica da Silva”, já se houvera atrevido, há anos, a  bem mais. Restara mantido o caráter de excluído tradicionalmente reservado à imagem do negro, e, mais que tudo, da negra na televisão tupiniquim. 

Como vê-se, o debate fluía, de fato, muito instigante.

Dentre os convidados, estava uma bela mulher, negra, atriz, que muita atenção despertara aos meus olhos e hormônios. Tinha ela montado um grupo de teatro, apenas com mulheres negras. Sua peça abordava alguma coisa acerca da situação da mulher nos tempos de escravidão no Brasil.

Até aí, tudo indo muito bem. Cá estou eu, do lado de cá da televisão, apaixonado pelas tranças do cabelo da negrona e pela bem-vindíssima discussão em torno do quanto o Brasil ainda é racista e não se percebe como tal, com o aval dos meios de comunicação.

O problema é que só me aparece depois.

Percebendo-se um tanto contrariada, em face dos demais debatedores, que defendiam com argumentos irrefutáveis as cotas para negros na universidade, e minoritária na posição divergente, vale-se a negra das tranças bonitas do famoso argumento da autoridade, para justificar seu ponto de vista. “Meu trabalho é reconhecido na Europa”, “ganhei não sei quantos prêmios na Europa”, “a Europa realmente sabe reconhecer um bom trabalho: o meu” e frases equivalentes.

Eu não vou, de modo algum, questionar aqui o trabalho da negrona. Sequer assisti à peça e achei mesmo admirável a eloqüência daquela bela atriz de pele pretíssima.

Mas a questão aqui não é de mérito. É de auto-afirmação.

Será que a coitada precisa realmente do reconhecimento da Europa para afirmar o êxito do seu trabalho? Mas não foi a própria Europa, no século XVI, a principal responsável pela diáspora do povo africano e o seu comércio coisificado, em navios negreiros? A exploração de colônias africanas, nos séculos XIX e XX, por acaso, não teve os países europeus como atores principais, culminando com guerras civis e massacres dos povos nativos? Não foi de lá que saíram teses de supremacia da raça ariana, que se estenderiam e inspirariam inúmeros atentados étnicos por todo o mundo? E, porventura, hoje não há resquícios dessas ideologias  no seio do xenófobo povo europeu? É diferente o tratamento dado pela TV européia ao negro em suas transmissões?

A Europa, por certo, não deve entender mais de escravidão negra do que nós, povo brasileiro, afinal foram nossos antepassados que sentiram na pele arder o açoite. Tampouco, terá critérios para apreciar a essência da arte que aponta a que ponto chegou a crueldade que de seu âmago despontara.

Lamento por aqueles artistas cujo público-alvo não é sua própria pátria. Estou certo de que, ao perseguirem o reconhecimento de pessoas distantes de si mesmos, estão procurando a agulha no palheiro errado.

Na verdade, não vejo a hora de se romper de vez os grilhões de sempre e de se parar de buscar no algoz de sempre a contemplação da nossa liberdade – que ainda tarda.

Pablo.

Comentários»

1. Danielle Cely - Janeiro 5, 2008

Na verdade, ainda somos um povo com esquizofrenia… Nem sempre temos uma consciência de classe, ou seja, a própria classe oprimida não se junta, não se fortalece. Enquanto ficarmos só com nossas bandeiras especificas: negros, homossexuais, estudantes,trabalhadores… não vamos pra frente… a luta é bem maior!

2. Miolos de Pote - Janeiro 6, 2008

Tudo o que se faz em prol de uma coletividade ou coisa do gênero tende a ser impura, falha, problemática. Primeiro porque a coletividade – pouco importa se no singular ou plural – é um mito. Ou talvez tenha existência fugaz, perdurando até a consecução de determinados interesses comuns, depois do que despontam os pontualíssimos interesses particulares. Tem sido sempre assim e sempre será. Quantos olhares e corações desolados testemunharam a desvirtuação de líderes de valorosos movimentos sociais, de partidos políticos símbolos de esperança, de homens e mulheres que, na cabeçeira de uma dita classe, movimentaram espíritos, anelos e anseios para em seguida sacodir tudo à própria sorte e focalizar o próprio umbigo.

O poder é droga que vicia, transforma, degenera. Há que se ter um bom lastro de ética, senso de justiça, bem comum, solidariedade, enfim, todas essas abstrações que talvez se aprendam, talvez se desenvolvam instintivamente, vai saber, mas que são inerente à alma. Princípios que não se adotam por deliberação, mas porque não se enxerga opção diversa. Afirmo que o verdadeiro líder comunitário e qualquer indivíduo efetivamente justo não contempla as opções “justiça ou injustiça”, vez que a segunda é inconcebível.

Em suma, como uma porcentagem mínima (tão diminuta que temo ser insignificante), da população enquandra-se no seleto e disforme grupo dos justos, estamos sujeitos à corrupção do indivíduo por tudo que é fator externo, dinheiro, poder, satisfação pessoal, etc. Pergunto-me que é o movimento negro, o feminino, dos trabalharores rurais, dos artistas, que é tudo isso frente às incontáveis e inevitáveis divergências que há no âmago de cada um? Toda pseudo coletividade é um barril de pólvora, porque o ser humano é individual, antes de ser social. A igualdade só é defendida enquanto se é inferior. E tudo isso, embora seja infinitamente lamentável, é natural.

Penso que o mundo não tem jeito, caro Pablo. Até porque, se tivesse, que seria da vida perfeita sem razão por que dispender o suor do rosto, o vigor dos músculos, a sagacidade da inteligência? Que seria do mundo sem ideais por que se levantar bandeira e dar as mão com amor incrivelmente verdadeiro?

Por isso e muito mais penso que o mundo não tem jeito. E penso com lágrimas nos olhos.

3. Pablo - Janeiro 7, 2008

Caríssimas,
Concordo parcialmente com cada uma das duas.
Porém, creio mais que a consciência de classe seja necessária à aglutinação dos movimentos e suas bandeiras precisam tornar-se menos pontuais e apontar para um horizonte de sociedade mais includente de todos.

É claro que não são todas as questões de desigualdade e preconceito que possam ser explicadas por meio da percepção estratificada de sociedade. A população homossexual e feminina mesmo. São tradicionais vítimas de violência sempre, inclusive institucionalizada, independentemente de qual seja a classe social a que pertencem os indivíduos.

Diferente se dá com a causa negra, que, por sua vez, penso eu, certamente pode ser explicada com base na estrutura social verticalizada e no conflito capital-trabalho. É o que diz o movimento negro socialista. O racismo decorre dos tempos de escravidão, que certamente é uma forma de conflito capital-trabalho, que tem a seguinte particularidade: a mais-valia é o próprio escravo. A resolução do conflito capital-trabalho só se dá com base na redistribuição dos meios de produção de riqueza (máquinas, terra, capital, conhecimento).

Decerto que quando se fala em sistema de cotas nas universidades, não se pensa em acabar assim com o racismo, porque o conjunto de indivíduos que terão acesso ao conhecimento continua sendo uma ínfima parte da população negra do país.
O sistema de cotas sequer arranha o problema do negro no Brasil; quanto mais irá resolvê-lo. Agora que a universidade é um espaço estratégico para que o negro ocupe e, a partir de seu ponto de vista de negro, trate de construir alternativas de sociedade onde ele se encaixe, através da produção científica e acadêmica, isso é.
Igualmente se dá com a televisão, que é um espaço que precisa ser ocupado pelo povo negro para que, a partir de sua referência de vida, possa dar visibilidade a seus anseios próprios. Mas, verdadeiramente, não é possível fazê-lo sem se conceber inserido numa estrutura maior em que o capital mercadifica e ideologiza tudo.

4. Pablo - Janeiro 7, 2008

A Clarrissa, para rebater a tristeza com que encerrou seu comentário, eu traria uma esperançosa frase de Paulo Freire: “O futuro é problemático, mas não é inexorável”.

De fato, uma percepção de coletividade que descarte a individualidade está fadada ao fracasso, porque desrespeita a própria base da sociedade: o ser humano.
Eu, particularmente, não creio em revolução de bolo. Uma revolução que é só eleger o cara certo que o mundo vai deixar de ser o que é e vai virar o mundo que nós queremos. Acredito muito mais na revolução do indivíduo, que passa necessariamente por uma educação emancipatória, e culmina na transformação de mentalidades individualistas.
“Vejamos a revolução de mim, de mamãe e papai”, nos dizeres de Pedro Osmar.
Porém, afirmar o respeito à individualidade e à subjetividade não é negar a divisão da sociedade em classes, mas inseri-la no seio de tal percepção – coisa que os socialistas de sempre nunca conseguiram fazer em sede de partidos e movimentos – e talvez tenha se dado por isso seu fracasso histórico.

Mas que a história é marcada por uma verdadeira luta de classes, longe de mim negar…

5. Gilmara - Janeiro 8, 2008

Para a primeira frase deste texto, deixo uma frase do querido Tom Zé: “Todo compositor brasileiro é um complexado”. =D

Quanto ao resto do debate, Pablo, você iluminou os meus dias ao me relembrar tão bela frase de Paulo Freire, que negrita bem o que me enche de um certo otimismo, que insisto, como bem ressaltei a moça Clarrissa, em conservar, porque senão minhas verdades de nada valeriam, eu perderia o sentido.

Então, transcreverei um trecho da obra de Paulo Freire, da qual Pablo citou tão bela frase, Pedagogia da autonomia, aqui. =]

6. Gilmara - Janeiro 8, 2008

É uma natureza em processo de estar sendo com algumas conotações fundamentais sem as quais não teria sido possível reconhecer a própria presença humana no mundo como algo original e singular. Quer dizer, mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma Presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um “não-eu” se reconhece como “si própria”. Presença que se pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe. E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude.
Na verdade, seria incompreensível se a consciência de minha presença no mundo não significasse já a impossibilidade de minha ausência na construção da própria presença. Como presença consciente no mundo não posso escapar à responsabilidade ética no meu mover-me no mundo. Se sou puro produto da determinação genética ou cultural ou de classe, sou irresponsável pelo que faço no mover-me no mundo e se careço de responsabilidade não posso falar em ética. Isto não significa negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. Significa reconhecer que somos
seres condicionados mas não determinados. Reconhecer que a História é tempo de possibilidade e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me reiterar, é problemático e não inexorável.
Devo enfatizar também que este é um livro esperançoso, um livro otimista, mas não ingenuamente construído de otimismo falso e de esperança vã. As pessoas, porém, inclusive de esquerda, para quem o futuro perdeu sua problematicidade – o futuro é um dado dado – dirão que ele é mais um devaneio de sonhador inveterado.
Não tenho raiva de quem assim pensa. Lamento apenas sua posição: a de quem perdeu seu endereço na História.
A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, de história e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural”. Frases como “a realidade é assim mesmo, que podemos fazer?” ou “o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século” expressam bem o fatalismo desta ideologia e sua indiscutível vontade imobilizadora. Do ponto de vista de tal ideologia, só há uma saída para a prática educativa: adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada. O de que se precisa, por isso mesmo, é o treino técnico indispensável à adaptação do educando, à sua sobrevivência. O livro com que volto aos leitores é um decisivo não a esta ideologia que nos nega e amesquinha como gente.

7. Pablo - Janeiro 9, 2008

Ainda lembro como se fosse hoje da semana em que li pela primeira vez esse livro. Tenho a impressão de que meus olhos brilham. (E brilham). Reaprendo a viver toda vez que releio Paulo Freire e revivo a esperança que aprendi a não deixar morrer em mim.

(Reaprendo a viver toda vez que dou um senhor abraço em Gilmara também).

8. Haddammann - Abril 17, 2009

Em tudo quanto é civilização o ser humano anotou: !Cuidado com o elogio! Mas nunca os covardes e dependurados em interesses se dão conta; até que atônitos vêem reverter desgraças sobre si mesmos. Assim como de vinte anos pra cá a gana de domínio das “novas” cruzadas religiosas destroçaram a nossa educação civil e nos sitiaram com flagelos, desespêro, e violência; assim vemos na nossa cara a fuga de negros para a Europa. Incapacitados de tomar atitudes em sua própria terra, pois a religião os dizima, e os torna apáticos, enquanto come suas riquezas, vende seus órgãos, vende seus filhos; então, agora são usados para sitiar com flagelo e violência as cidades desenvolvidas (como vimos muito bem fazerem aqui no Brasil; com a imputação desvairada de igrejas e ‘seguranças’ em tudo que é lado; entupindo de sandices nossas escolas, nossas músicas, nossa liberdade; impregnando de violência nossos esportes, nossas convivências, exterminando nossos clubes, açulando um falso racismo, amordaçando nossa Imprensa, adulando nossos Exércitos, e infiltrando-se deformando nossos partidos políticos). As cidades que já não suportam mais o parasitismo psicológico que impõe fantoches através de teo-pulhíticas se tornaram alvos, e os pulhas passaram a disseminar a farsa de “protetores” das famílias para os jovens terem seus pais tutelados por crápulas alcoviteiros sem-escrúpulos (que pregam e disseminam que pessoas se vendem), para nenhum garoto ou garota e nenhum de nós sequer termos chance de tentar saltar a cerca das senzalas-mistas rumo à liberdade. Não importa a pele: Quem leva um filho pra pastor e padre ou diferentes caras dessa coisa, alimenta o desespêro, a violência, o descambo civil. Olhem com atenção tudo e verão em cada segundo desses (des)governos que se sustentam em lacaios covardes a fomentação da violência, do mentiroso conluio de descompromisso com a Terra e da insana devastação e depredação da Natureza e da Sociedade e de nossa Civilização. Se temos ainda algum tipo de brio então havemos que tomar uma posição pessoal ao olhar nossa sorte de a Natureza nos propiciar consciência para sabermos nos preservar. A mesma consciência e estudos nos deu a História e expõe na nossa face o que estamos a fazer; e se continuarmos repetindo a insensatez da mentirada da hipocrisia parasita em que sempre nos dependuramos, teremos a conta da extinção de nossos dias, todos desgraçados por nós mesmos, por nossa sujeição à canalhice de pulhas usurpadores de nossas produções e riquezas. Aprontemos defesa à nossa Civilização.
Haddammann Veron Sinn-Klyss