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Na Defesa do Funk Janeiro 29, 2008

Posted by Pablo in Crítica.
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Depois que uma garota ficou nua em um baile funk, (as fotos em pleno jornal da Band: uma dessas coisas de gente reprimida mais esdrúxulas depois do vestido da Mônica Lewinsky) em Vitória (ES), reacenderam para todos os lados os mesmos comentários preconceituosos que surgem em casos de polêmica envolvendo esta importante manifestação cultural.

A mídia, incitada por uma cultura burguesa filhinha-de-papai (que não consegue se encarar como discriminadora, mas que é – e muito) e encontrando no funk (no funk de essência, claro) verdadeiro repúdio à proposta cultural e ideológica dominante, não hesita em desprestigiá-lo, enquanto expressão das comunidades de baixo poder aquisitivo do Rio de Janeiro.

Algumas considerações necessárias.

Do fato. Eis que, em uma bela noite do funk capixaba, um certo MC carioca oferece a uma jovem R$ 600,00 para ela tirar a roupa no palco. Ela, bêbada, adere.

“Ele fez um desafio para que as meninas tirassem a roupa. Eu acabei aceitando porque tinha bebido. Era para tirar a roupa, dançar um pouco e abaixar. Foi o que eu fiz”.

Da repercussão. Como não poderia ser diferente, numa sociedade doentia na forma como encara o sexo, a garota, que não era menor de idade e tinha três filhos, após ter sido filmada e o vídeo ter circulado a internet, apareceu em rede nacional.

Terminou que ela perdeu o emprego.

Até agora não recebeu o dinheiro do clube que organizava o baile nem do MC e está respondendo a um inquérito policial pelo ocorrido, correndo o sério risco de ser condenada a cumprir pena. Uma delegadA investiga o caso.

Da história do funk carioca. Por volta da década de 70 e influenciado pelo Miami Bass, ritmo oriundo da Flórida (EUA), e pelo Hip Hop americano, o funk tomou conta das rádios comunitárias das favelas cariocas, vindo a atingir espectros de alcance maiores com o passar do tempo.

As equipes de som e as rádios locais começaram a organizar bailes dançantes, em clubes das periferias, e se passa a verificar a ampla adesão popular àquele estilo musical. As reivindicações em combate à violenta repressão policial nas favelas começam a inspirar as primeiras músicas que surgem.

Dentro daquele contexto, pode-se dizer que o funk foi utilizado como expressão da revolta das comunidades pobres dos morros cariocas àqueles abusos cometidos.

A mídia, com Gabriel o Pensador (“Hoje eu tou feliz/Matei o presidente”…), MC Cidinho (o do Rap da Felicidade: “Eu só quero é ser feliz/Andar tranquilamente na favela onde eu nasci”…) e outros, começa a dar uma visibilidade maior àquela expressão cultural. O Rap, enquanto música falada, por outro lado, mais se desenvolvera para os arredores de São Paulo, antes de o Hip Hop ganhar o Brasil.

Contudo, com o narcotráfico tomando conta das favelas, as novas músicas trataram de acompanhar a nova realidade, de modo que as temáticas abordadas passaram a estimular o consumo de drogas e exaltar o uso de armas. Os bailes viraram palcos para as famosas “brigas de galeras”, onde as pessoas eram divididas em dois lados (Lado A e Lado B) e quem ultrapassasse a fronteira entre eles era espancado pela outra “galera”. Não era raro que pessoas de grupos de comandos rivais se enfrentassem em bailes funk, terminando muitas vezes tragicamente, com tiroteios e mortes.

Por causa disso, muitas casas de shows, sobretudo as próximas às áreas ricas da cidade, foram fechadas pela polícia e pelo Ministério Público. Foi aberta inclusive uma CPI na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, para investigar donos de casas de baile funk envolvidos no tráfico de drogas.

É aí que despontam os charmeiros, como grupo de resistência àquela lógica de violência que se implantava naquela realidade e se refletia naquela expressão musical. Músicas mais dançantes e letras sensuais marcam a fase do new funk, que não demorou para estourar nos meios de comunicação em massa.

Entretanto não é de se fugir da observação pertinente de que, se por um lado é válida a utilização da liberdade sexual como reafirmação da cultura popular das favelas cariocas, por outro, dão evidência a outras problemas sérios que reforçam o preconceito para com o funk e com a favela, sobretudo no que notabilizam o machismo encrustado na sociedade brasileira, a exploração do corpo da mulher e a banalização das relações afetivas reduzidas ao mero sexo casual.

Não foi mais que isso o que se viu no baile funk de Vitória, onde, como se verá, será a moça pobre que vai aturar sozinha o mundo cair em sua cabeça.

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1. Recomendo pesquisar Bangalafumenga e Monobloco, além, claro, do Pedro Luís e a Parede.

Comentários»

1. Pablo - Setembro 1, 2009

Depois de uns anos após escrever esse post, encontrei essa monografia muito interessante para os que se interessarem em pesquisar sobre o funk. Tá no site do overmundo.
http://www.overmundo.com.br/banco/direito-e-cultura-popular-o-batidao-do-funk-carioca-no-ordenamento-juridico