jump to navigation

De volta ao Paleolítico. junho 3, 2008

Posted by Pablo in Crítica.
trackback

Já que faz o maior tempão que a inspiração não bate pra eu escrever por aqui, resolvi, então, falar de sexo, porque – sabe como é, né? – ninguém precisa de inspiração pra falar sobre o tema. Depois de tocar com o Mulambo Acústico no Dia da Prostituta, a convite da galera da Agência Ensaio (http://www.agenciaensaio.blogspot.com), falar de sexo é quase inevitável. Mas falemos também de História, já que, claro, ninguém precisa abdicar da cultura só porque vai lidar com os instintos mais intensos e profundos do corpo e da alma.

A questão a ser debatida é a seguinte: a sexualidade convencional serve de estrutura celular à sociedade capitalista? Sempre achei esse tema altamente interessante. Discorramos sobre ele.

No início, um pouco depois de deixarmos de ser macacos* pra virarmos essas coisinhas bonitinhas que somos hoje (ou, para os criacionistas, um pouco depois de o espírito do Senhor parar de pairar sobre as águas), e um pouco antes de descobrirmos a escrita, passamos pela era que se convencionou chamar de Pré-história. Como sabemos, esse período se subdivide em Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais, cada qual com características próprias da evolução da humanidade e, obviamente, da sexualidade humana.

Além do fato de que o fogo e a roda, ainda hoje são usados metaforicamente com conotações sexuais (piadinha infame!), o Paleolítico tem uma importância muito maior do que se pensa para a compreensão da sexualidade do ser humano. Segundo os historiadores e os sexólogos, naquele período, a experiência sobre como os instintos reprodutivos eram percebidos pela sociedade operava de forma bem diferente da atual, em vários aspectos. Primeiro porque o homem era nômade e sua vida estava inteiramente submetida às vicissitudes da natureza. Em virtude disso, não existiam as famílias nos moldes que temos hoje: pai, mãe e filhos. Tal estrutura sucumbiria à primeira intempérie natural. Os homens se aglomeravam em grupos maiores, ditos clãs. O sexo era feito entre indivíduos pertencentes ao mesmo clã e, na família, apenas a figura da mãe era conhecida – não a do pai, (até porque o pai podia ser qualquer um do clã, já que inexistia a monogamia como princípio). Na verdade, a participação reprodutiva masculina ainda era ignorada e só viria a ser observada mesmo, com a sedentarização do ser humano, a partir do Neolítico.

Por causa da inconsciência do papel masculino na reprodução, diversos pontos podem ser observados a respeito da vida humana àquela época. Em especial, o fato de que se tratavam de sociedades matriarcais, em que – diferentemente da sociedade que se levantou a partir da Idade dos Metais – a mulher ocupava posição social central. Isso se deu, sobretudo, porque sua figura fora diretamente associada à da fertilidade e da prosperidade, conceitos essenciais a quem dependesse diretamente da natureza para sobreviver.

Desconhecida a contribuição masculina no processo de reprodução, o qual era percebido como algo extremamente valioso, até porque filhos certamente eram bênçãos quando se necessitava da vida em grupo para garantir a vida no mundo, ainda se pensava o procriar como um fenômeno espontâneo. Consequentemente, a mulher era compreendida como um ser divino, uma dádiva à humanidade, por, inexplicavelmente, ser capaz de gerar filhos e prover a manutenção da espécie.

Daí porque inexistirem relatos de pesquisadores que tenham encontrado deuses do sexo masculino que datem dessa época. Talvez até houvesse, mas certamente a presença feminina no ideário metafísico era absolutamente predominante. A imagem das mesmas – tal qual a da Vênus de Millendorf – provavelmente admiradas e desejadas àquela época, era bem diferente da imagem que hoje se valoriza e se tem como o padrão de beleza tão conveniente à indústria de cosméticos. Aquela deusa, esculpida em pedra, possuía algumas porções extremamente volumosas de gordura na pele, inclusive nos seios, vulva e barriga, de onde se crê sua estreita relação com a fertilidade, sendo muito provável, inclusive, que sua forma representasse o sentido estético predominante ao homem pré-histórico. Uma mulher corpulenta, forte e que representasse segurança à preservação da prole.

Tal qual os demais mamíferos de médio porte, é presumível que o ser humano fosse também poligâmico, uma vez inexistente a estrutura familiar no formato que hoje conhecemos, e que eventualmente desse razão à monogamia.

No entanto, é a partir do momento em que o homem abandona a vida de nômade e estabelece morada em determinado ponto territorial que passa a exercer o domínio da agricultura e da pecuária, determinando-se definitivamente a propriedade como base das sociedades humanas. É provável que tal fato tenha se consolidado de forma aproximadamente simultânea em vários pontos do mundo. Em certos lugares mais cedo, noutros mais tarde, mas a tônica é que a procriação sempre tendeu a servir à necessidade da defesa do patrimônio do clã diante das ameaças por parte de outros grupos humanos. A figura do macho, entretanto, que até então ficara relegada a um segundo plano, passa a se colocar como essencial à sociedade que se levanta, sobretudo em função da força física para proteção da propriedade – atributo que a natureza não proviu à figura feminina.

O Neolítico é o período em que o homem fixa-se num determinado território e sua sobrevivência é assegurada pelo domínio da agricultura e da pecuária. É provavelmente em virtude das práticas pastoris, a partir da observação dos animais domesticados, que o homem se vê co-autor da reprodução. O carneiro cobria a ovelha e depois de algum tempo o rebanho era infestado de carneirinhos e ovelhinhas. O boi dançava o créu na velocidade cinco com a vaca e eis que surgiam os bezerrinhos. Essa descoberta foi determinante para o declínio da sociedade matriarcal.

Com a Idade dos Metais, a descoberta de materiais aptos à guerra coloca o homem como foco central da sociedade e desloca a mulher a um posto secundário. Não coincidentemente, é deste período que se vê a sedimentação da propriedade privada como fulcro da sociedade e a curva da acumulação do capital toma feições exponenciais. 

Analisando a sociedade atual, creio que caminhamos para o retorno às estruturas primitivas. Embora permeada de traços antagônicos, típicos de sociedades em transição, a nossa é uma sociedade em que a figura feminina, com a descoberta da pílula anticoncepcional, com a reafirmação social e sexual da mulher (elas também querem ter orgasmo!), com a independência financeira, e mais com o simbolismo que é o culto à imagem da fêmea nas tevês e revistas (muito embora distorcida pelo já arcaico olhar patriarcalista e consumista que guia os meios de comunicação), assim como a decadência de tabus como virgindade e adultério, já é visível um outro rumo para a sexualidade contemporânea.

Fica a proposta para as mulheres que ousarem escrever um outro horizonte: não devem existir sexos opostos. E se a gente brincasse de sexos complementares?

________________________

* Errata: para a teoria evolucionista de Darwin, o homem não é descendente direto do macaco; apenas possui um ancestral em comum.

Idéias extraídas, essencialmente do livro A Cama na Varanda, de Regina Navarro.

Comentários»

1. Matheus Gondim - junho 8, 2008

Gostei das reflexões; o bom humor lembra bastante o do livro “Sexo para Principiantes”, de Carlos Eduardo Novaes (autor também de “Capitalismo para Principiantes” e “História do Brasil para Principiantes”). Engraçado que um dia, quando criança, imaginei que aquele livro ensinasse a fazer sexo e comecei a ler por causa disso; hehehehe.

2. Pablo - junho 24, 2008

Lamento por você, Matheus. Mas eu também não vou lhe ensinar a fazer sexo…

3. ellen - fevereiro 17, 2012

podreeeeeeeeeeeeee


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.