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Aprisco. Dezembro 17, 2008

Posted by Pablo in Crônica.
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Você ligou. Ela não disse que não. Que sim, muito menos. No entanto, o não seria a resposta para agora. Ela não está preparada. Mas o sim não tarda. Como é que você sabe? Sabe porque sabe. Do não a gente aprende a escapar na malícia que o prego aprende a driblar a martelada do martelo. A voz diz quase tudo. Do tom de voz, você sabe que ela está com ele. Ela quer ficar com você. Você sabe que ela quer ficar com você porque você viu isso no apetite dos olhos dela, outro dia, olhando pra sua coxa branca. Você aproveitou que ela não estava olhando e deu aquela conferida pra ver se os peitos dela ainda estavam chupáveis. Estavam. Não há dúvida. Ela quer. Ela pensa que você não sabe. Ou, pior, ela pensa que você não quer. Você quer, mas compromisso é coisa pro pascácio titular oficial das atribuições de namorado dela. Você só quer o melhor lado dela. Andar de mãos dadas é com ele. Você ligou pra ela. Ela atendeu. Quase não lembra de você. Mentira. A voz sempre denuncia. Ela titubeia. Você não dá corda. Você fala besteira. Da vida. De dinheiro. Dos amigos. De algum livro, cantor ou qualquer outro artifício retórico para o amor fácil com a mulher dos outros. O homem solteiro tem que optar entre o escrúpulo e sua vida sexual. Você não optou pelo escrúpulo. Ela pensa no namorado. É um bom rapaz. Você não pensa nele. Pensar é pressuposto de não fazer. Ela quer fugir. Quase desliga na sua cara. Não vê razões para isso. Você só está conversando, como um amigo, como um leal amigo, pra falar da vida, do cansaço, do pesar de estar vivo. Você é um amigo leal. Só está ligando porque tem saudade. Não é uma saudade carnal. É uma saudade de amigo leal. Pelo menos, é o que você diz. Você está ligando com a lealdade que um cachorro ligaria pro seu dono que saiu pro trabalho. Isso é o que você diz. Na verdade, na verdade, o cachorro está ligando pro pedaço de carne.

Comentários»

1. Veronica - Dezembro 22, 2008

Coisa típica de Pablito! Existem coisas que são inerentes à pessoa, mesmo quando ela procura negar…hehehhehhhehheh

2. Clarrissa Yemisi - Março 21, 2009

“Na verdade, na verdade, o cachorro está ligando pro pedaço de carne”.

Eis a frase mais verdadeira do texto. Acho interessante escritos pretensamente sinceros como esse, caro. Tu és safado mas pelo menos confessa, não chega a ser cínico como os demais, rs.

A instrumentalização da mulher, a reificação dela, a destinação que lhe é atribuída para o prazer sexual é algo legitimado, banal e desumano. Não que não haja quem goste de ser coisa, quem não se divirta em ser o brinquedo da brincadeira, mas não deixa de ser uma coisa desagradável essa ‘atuação’ descarada’, essa investida dissimulada…

Talvez se pudesse haver homens e mulheres com sangue a correr nas veias e sem alma, sem personalidade. Talvez a gente fosse mais feliz… ou não. Talvez não tivesse “graça”.

No fim das contas, o “bom” é aprender a fingir e fingir que se crê no fingimento (próprio e alheio) e ainda não lamentar-se por isso. Dar conta do papel de protagonista na condição de figurante.

E somos, todos, figurantes, nesse espetáculo grotesco.

Beijo, moço.

Pablo - Março 23, 2009

Pretensamente sinceros?… Obrigado pela sutileza da crítica… Não concordo com ela, mas sei que é um ponto de vista olhado de outra perspectiva. Por que eu discordo? Porque entendo que o desejo sexual é natural e deve mesmo ser estimulado. Porque é gostoso, porque é saudável, porque alimenta a auto-estima e, acima de tudo, porque gera uma corrente de afetividade entre os indivíduos, quando exercitado de forma sã e com respeito. Eis o porquê de eu pensar impertinente achar que desejo e coisificação da mulher são sinônimos. Onde há respeito, não há instrumentalização. Há sentimento. É verdade que o sentimento que eu creio possível não é o “amor felizes para sempre”, porque isso não existe. Eu acredito no amor de carne e osso – porque o meu espírito (e o seu também!) é de matéria pura.

3. Clarrissa Yemisi - Abril 2, 2009

Humrrum, o ‘amor’ de carne e osso é muito saudável. Não sei porque os amantes inventam essas conversas fiadas pra disfarçarem a salivação diante do pedaço de carne. Deve ser o gosto pela arte.