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No caminho do mercadinho. Dezembro 17, 2008

Posted by Pablo in Crônica.
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No caminho do mercadinho, mais uma cena hilária com a dona Marocas, que está devendo trinta anos à cova, mas ainda tem algum dinheiro no banco. Aliás, dinheiro esse que terminou lhe rendendo um prestígio ímpar no culto religioso a que freqüenta e um fogoso namorado quarenta anos mais novo. A cena hilária, contudo, não foi na reza nem no amasso. Foi com seu amarelo e simpático vira-lata, que depois de anos de uma religiosa e casta obediência, decidiu reivindicar seus direitos à lubricidade.

- Agora você quer entrar, né? Hein? Hein?

Pra que aquela insistência no “hein”? Ela queria o quê? Que ele respondesse? Quero entrar sim, dona Marocas. Aproveite e, quando vier, traga um bocado daquele bife velho e oleoso que a senhora fritou no almoço e que, se tivermos sorte, vai cumprir a funesta missão de entupir nossas veias mais ligeiro do que nós pensamos. A senhora não tá vendo que tá arriscando chover, não? Abra logo essa porta que eu estou mijando-me.

- Você foi fazer o quê no meio da rua? Eu não disse pra você não ir?

Aquela velha era mesmo uma metida. Eu falo alguma coisa quando aquele motoqueiro fedorento aparece e leva a senhora na garupa, por acaso? Se eu fui passear foi porque eu quis, varei. Pra sua informação, eu estava ali na esquina, conquistando corações. Agora vai ser assim, minha cara. Se eu quiser sair de novo, a senhora vai me desculpar, mas eu vou sair e em todo o planeta Terra não tem carrocinha ou cidadão que me segure dentro de casa. Eu tou me mijando, mulher. Abra essa bexiga dessa porta! Eu vou fazer aqui no terraço mesmo, viu? Depois que a catinga ficar pegada no tapete não vá botar a culpa pras visitas na minha “incontinência urinária”.

- Você devia dar mais valor ao que tem…

Ao que eu tenho? Metida e desorientada. Depois que o motoboy apareceu, adeus vida boa. Vou mijar, viu? Já tá avisada. E também não sei pra que tanta cerimônia… Ela é uma cachorrinha decente, de família. Fiel que só vendo. Tem outra coisa. A senhora não pense que eu já me recuperei daquela concupiscência que eu vi vocês dois fazendo no escuro da noite, lá no quintal de casa não, viu? A senhora!… Nessa idade!… Essa casa parece que virou Sodoma e Gomorra. Em tempo de passar alguém da igreja e pegar a sem-vergonhice de vocês no flagra… Nã. Dê-se ao respeito… O orelhudo que vai todo dia pro mercadinho comprar biscoito já notou, viu? Se eu fosse ele, ligava pra polícia…

- Nessa casa você tem de tudo, cachorro inconseqüente…

De tudo? Metida, desorientada e ainda por cima doida. De tudo não, que aqui eu não tenho uma namorada…. Tou mijando, viu? A senhora demorou pra abrir a porta…

Dialogar com ela não era mesmo uma alternativa nunca, porque ela não entendia nada. Parecia que estava gagá. Será que era isso mesmo? Devia ser. Gagá da silva. Dona Marocas Gagá da Silva, a loucura em pessoa.

- Qualquer dia eu resolvo dar um fim em você e aí você vai ver quem é a verdadeira dona Marocas, seu ingrato.

O cachorro olhou para a dona Marocas com a nobreza de um conde. Ele sabia que ela ameaçava, ameaçava, mas tinha o coração mole. No entanto, aquilo estava muito errado. A dona Marocas pode namorar, todo mundo pode namorar, menos o pobre do cachorro? Por quê? Ele era jovem. Só porque ele é um cachorro não pode namorar? Ah, não. Isso ia mudar dali pra frente.

- Na próxima vez que você mijar no terraço, você apanha, tá ouvindo?

Vai te catar, dona Marocas. Cadê o bife?

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