Circuito Cultural das Praças 2011/2012 julho 19, 2011
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A Prefeitura Municipal de João Pessoa está com as inscrições abertas para o edital do Circuito das Praças – 2011/2012. Aos interessados em participar, as inscrições vão de 19 de julho a 08 de agosto de 2011. Aqui vai o edital para quem se interessar em se inscrever.
http://www.4shared.com/file/0f2-Uirb/Circuito_das_Praas.html
As Pizzas do Circuito
O Circuito das Praças desse ano contará com um total de 20 praças, em que ocorrerão apresentações entre os dias 16 de setembro de 2011 e 25 de fevereiro de 2012, num total de 24 semanas e 480 apresentações, podendo o número ser ampliado, com a inauguração da Praça do Costa e Silva e do Geisel. Contará também com a colaboração da SEDES, que irá ceder pessoal para dar o suporte de recepção e apoio aos artistas nas praças.
Certa vez, Chico César, em reunião provocada pela Funjope junto ao Tribunal de Contas do Estado, em que discutíamos questões relacionadas às contratações, licitações, inexigibilidades, eventos culturais e outras atividades diárias, lançou uma pergunta à auditora, que ficou meses ressonando na minha cabeça. O que fazer se o jovem Zé Ramalho – não esse famoso que sempre aparece tocando nas rádios, mas o jovem Zé Ramalho, sem matérias de jornal, sem currículo, no começo da carreira – chegasse batendo na porta da Funjope, dizendo que fez uma música massa, chamada “Avohai” e que precisa de um apoio?
A pergunta, obviamente, não tem outra resposta. Até Zé Ramalho tem que se organizar e cuidar da carreira artística dele, que as coisas não caem do céu.
Mas, ao passo em que isso é verdade, também é dizer que é função do Estado estabelecer uma política educativa de inclusão dos novos artistas. É função da Funjope instituir uma política cultural antenada com a cena, mas que nela possa interferir, de modo a fomentar manifestações, com o propósito de que se fortaleçam, ainda que não consigam se estabelecer no mercado. Isso porque a cultura das comunidades tem uma importância que vai para além da indústria cultural, caminhando para afastar da criminalidade, da prostituição infantil e apontando para uma noção de educação informal, reflexão e libertação.
Que o Circuito das Praças é um dos mais, se não o mais importante dentre os projetos desenvolvidos na Fundação, entre nós, parece ser um consenso. É uma ação que soma as várias linguagens culturais em prol da diversidade e da promoção do acesso à cultura, percorrendo a cidade inteira. É a oportunidade para novos artistas ou, como diria o secretário, “outros zé-ramalhos” se lançarem na cena da cidade, ganhando um cachê relativamente satisfatório, comparado ao que paga o mercado cultural, e brigar cada qual à sua forma, por um espaço ao sol. São garrafas lançadas ao mar. É possível que um ou outro consiga grande sucesso no mercado, porém o maior êxito do projeto não está bem aí, mas no incentivo às trocas de saberes e à valorização da vida comunitária.
Mas políticas públicas de verdade são feitas a partir da análise de indicativos, sejam eles quantitativos e qualitativos. O resto é retórica. O ideal é que nossa metodologia de trabalho esteja em sintonia com os números, de modo a se verem evidentes os propósitos pelos quais interferimos na cena cultural, deixando claro o sentido para onde estamos nos propondo a chegar, com que pode contribuir a análise desses dados.
Mas para que servem os dados? Servem para apontar as dificuldades, as deficiências, potencialidades e superações de um projeto. Se se sabe logo de cara que 20% dos grupos de cultura popular ainda são imediatamente reprovados por causa de burocracia, é preciso saber que essa é uma deficiência do segmento, que, na verdade, tem fundo estrutural e está ligada ao alto índice de analfabetismo no setor. Aliás, ao todo, foram 146 grupos batidos pela burocracia, num universo de 353 inscritos. 41%. É um dado que impressiona e sugere que talvez o despreparo vá para além da cultura popular. Com problemas de certidão municipal ou federal, então, foram 51 reprovados – e sem salvação (25 de música, 10 de cultura popular, 08 de teatro, 03 de dança e 02 de artes integradas).
Assessorar os grupos é uma tentativa, um paliativo, mas não resolve o problema da baixa escolaridade e em alguns casos, chega a gerar alguma dependência. Talvez estratégias ligadas à formação de jovens pertencentes aos grupos, de alguma forma, contribuam, já que a maioria dos mais idosos tem grandes dificuldades de locomoção e acesso e os mais pobres, além de digitalmente excluídos, apresentam ainda sérios problemas com a leitura e aprendizagem.
Há outros fatores que precisam ser considerados. É necessário selecionar apresentações com qualidade, mas também é preciso que os grupos que estão se iniciando tenham espaço. É preciso gerar o acesso das várias zonas de interesse social, pensando de forma especial em se integrar as áreas tradicionalmente marginalizadas e melhorar a qualidade de vida das pessoas. É preciso incluir os artistas dos bairros com maior índice de violência, para que se criem referências culturais nesses espaços. É preciso estimular que os grupos de interior apareçam na cena pessoense, porque João Pessoa é a capital do Estado, e no campo da cultura, precisa continuar agindo como tal, procurando estimular sua cultura e a de outros municípios, próximos e distantes, tantas vezes servindo de vitrine para alavancar a articulação de vários grupos.
O fato é que o Circuito tornou-se um projeto para além do município de João Pessoa. É uma política para o Estado, sendo tradicional a participação de grupos de outras cidades. Acho que podemos agora levantar números assim: quantos outros municípios estão envolvidos? Dentre os grupos de cultura popular, foram nada menos que 19 grupos de Paraíba adentro, envolvendo as cidades de Lucena, Bayeux, Cabedelo, Campina Grande, Pilar, Alagoa Grande, Santa Rita, Conde, Sapé, Pedras de Fogo, Natuba e Mamanguape. Ainda falando dos grupos de cultura popular, João Pessoa viu-se representada pelos bairros de Paratibe, Valentina, Engenho Velho/Vale do Gramame, Nova Mangabeira, Padre Zé, Mandacaru, Alto do Céu, Rangel, Cristo, Bola na Rede, Bairro dos Novais, Rua do Rio, Cruz das Armas, Jaguaribe, Torre e Alto do Mateus.
Também é preciso que haja a busca pela promoção da igualdade entre linguagens artísticas, já que, como se observou, há uma preponderância quase que absoluta de grupos de música na cena. Talvez o mais assombroso de todos os dados seja o fato de que não menos que 63,46% dos grupos (224) se inscreveram identificando sua linguagem como a da música. Aliás, ao menos nas inscrições do Circuito, os grupos de música parecem estar à frente dos demais no preparo para o relacionamento com o operar da máquina pública. Decerto que os investimentos no setor são tradicionalmente superiores às demais linguagens e talvez seja esta a razão para a maior procura e a organização maior dos grupos. 136 grupos de música apresentaram toda a documentação necessária, 25 foram reprovados, ficando outros 63 ainda com pendências para se resolver.
Enquanto isso, 17,28% dos grupos (61) se inscreveram como cultura popular, 9,92% como teatro (35), outros 6,8% como dança (24) e mais 1,42% (05) como artes integradas. De literatura, houve 02 inscrições (0,57%), uma de audiovisual, uma de artesanato e nenhuma de artes visuais, o que culminou com uma visita do nosso Maurílio ao curso de Artes Visuais da UFPB, para dizer umas poucas e boas para os artistas plásticos, que parecem preferir continuar trancados na universidade, produzindo coisas para somente outros artistas verem e entenderem…
Diante desse quadro, criei dois gráficos no formato de pizza para refletirmos se é possível interferirmos, de modo a equilibrar as expressões por se apresentar, não apenas no Circuito como em outros projetos da Fundação, mas de modo a promover cada vez mais essa diversidade, sem deixar de observar que um corte exagerado no campo de música, que paira como maioria plena, implicaria num sério problema para os artistas da cidade.
Voltando os olhos para os grupos de cultura popular, o número de aprovados pode ser dividido da seguinte forma: 06 grupos de matriz afro, 18 grupos de carnaval (quase todos filiados à Federação), 06 duplas de repentistas (entre violeiros e emboladores), 01 aboiador, 03 lapinhas, 03 babaus (todos de Guarabira), 07 cocos e cirandas, 01 nau catarineta, 02 cavalos marinhos, 02 grupos juninos (uma quadrilha e um trio de forró), 03 parafolclóricos (incluindo o grupo do Jacoca, que se inscreveu como dança) e 02 artistas populares (Baixinho do Pandeiro e Mestre Brown). Dentre os grupos, 21 são ligados ao Fórum de Cultura Popular, o que representa 39,62% dos aprovados, mostrando a importância da organização do segmento para a mobilização, educação e promoção de políticas públicas.
Enfim, creio que o projeto caminha no sentido de uma noção de Estado participativo e é preciso que se veja o quanto representa um verdadeiro projeto-piloto para, quem sabe um dia, promovermos, quando o Estado sair do vermelho, o sonhado Circuito Cultural dos Municípios. De qualquer forma e tendo em conta as avaliações levantadas no ano passado junto ao movimento cultural, precisamos, mais que tudo, acompanhar de perto cada detalhe do Circuito que vem. Saber se o som vai estar adequado em cada praça, se haverá camarins, se haverá segurança, se a água está chegando pontualmente, se vamos definir a programação com antecedência para fazermos uma divulgação que potencialize o projeto (posso fazer um blog!). A propósito, ainda não conversamos como faremos a abertura do projeto. Milton pensou em trazer um artista com reconhecimento nacional. Eu sugiro que haja a participação de artistas locais, de modo que fique bem representada a diversidade das linguagens no Circuito.
Enfim, chegou o Circuito das Praças e, com ele, trabalho…
Abraços, queridos… E vão desculpando o que, no curso de Direito, chamam de “tergiversação para ruminar bucéfalos”, ou, no português das pessoas normais, conversa pra boi dormir…