Mulambo Acústico Setembro 1, 2009
Posted by Pablo in Crítica, Música, Poesia, Propaganda.1 comment so far
MULAMBO ACÚSTICO – UM BREVE RESUMO (querendo conhecer mais, é só correr atrás)
1. Apresentação.
O grupo musical paraibano Mulambo Acústico surgiu da ideia de mesclar ritmos da cultura popular nordestina a outros estilos musicais, procurando situar a sua criação musical de forma contemporânea, num contexto global, a partir da poesia de Chico Berg, que escreve e compõe desde a década de 60. A diversidade musical do grupo compõe um mosaico de maracatus, cirandas, cocos, afoxés, jazz, rock, afrobeat e uma visível influência tropicalista.

Mulambo Acústico - a música paraibana que se faz com um olho no mundo
2. O show.
A proposta do grupo conduz a uma apresentação de grande riqueza rítmica, harmônica, literária e lúdica. O grupo trabalha músicas de autoria própria, evidenciando-se no show do Mulambo uma estética onde se utilizam elementos da cultura regional, e exploram-se, em especial, o violão e a viola nordestina, além da percussão de ritmos tradicionais, aliados a outras linguagens musicais, pertencentes a diferentes universos expressivos.
3. A arte em favor dos Direitos humanos
O Mulambo, sensível à trágica realidade brasileira, conduz sua apresentação pelo ramo da denúncia social e aborda temáticas como a reforma agrária, o cárcere, o problema do negro no Brasil,a desigualdade, visando sobretudo, trazer à discussão uma proposta transformadora de mundo, a partir da arte-educação.
4.A atuação
O Mulambo Acústico possui uma trajetória dentro dos movimentos culturais. A banda vem participando de eventos promovidos por várias organizações e instituições locais – Ateliê Casa Velha, Batuque Quebra Quilos, grupo de cultura afrobrasileira Pérola Negra, Alabê Alujá, SESC, UFPB, CEFET, FUNJOPE, e pelos movimentos negro e estudantil, através da realização de shows e também na idealização e produção cultural.
5. O poeta Chico Berg

Chico Berg - poeta, compositor, vocalista e meu pai e meu brother.
Oriundo do interior do Ceará, o poeta Chico Berg é um misto de cultura urbana e rural. Sua produção artística é o reflexo da observação de bandas cabaçais, aboiadores, emboladores e grupos de maracatus, que marcaram sua vivência. Tendo chegado à cidade de João Pessoa, na década de 70, em plena ditadura militar, participou da Geração Xerox, sendo possível encontrar, espalhados pela cidade, vários livros de sua autoria, os quais gratuitamente distribuía para os transeuntes.
A partir de então, atua no cenário artístico do bairro de Jaguaribe, hoje, juntamente com seus filhos, que com ele compõem o grupo Mulambo Acústico, um dos quais é o responsável por este blog. Enquanto integrante fundamental do Mulambo, Chico Berg é o seu idealizador, sendo a sua liberdade musical e a profundidade da sua poesia as principais características das composições do grupo.
——————
Pra saber mais do Mulambo:
www.mulamboacustico.blogspot.com
Contatos:
Fones:
(83) 3241-2621
(83) 8893-1228
Favor não ligar a cobrar…
.
Coco de Roda – Zé Sabino (Lucena – PB) Dezembro 2, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Crônica, Música, Vídeo.add a comment
[Na véspera desse registro que fizemos com o Coletivo de Cultura e Educação Meio do Mundo, estivemos em um coco na cidade de Lucena].
Chovia muito.
Cruzamos o mar a balsa e chegamos a tempo de assistir a festa da igreja.
Chovia mesmo. Eu lembro. Tinha um cachorro molhado, que olhava espantado pro coco. Não perdia um passo. Era o mais atento à dança.
Eu ainda pensei em explicar pra ele de que se tratava. Que aquilo é o coco e aquelas pessoas cantam o que cantam desde que nasceram. Que elas aprenderam com seus pais, que aprenderam com os seus. Não expliquei. Talvez ele nunca entendesse, como muitos paraibanos também não entendem.
Quanto àquela dança na lama… É que cultura popular tem disso mesmo.
Mas eu também estava espantado. Eu contei. Eram 28 pés de pessoas que, sem um porquê material, descalças, pisavam e chutavam o preto da lama.
Puxando o coco, um ganzá, dois tambores, dois velhos pescadores. No começo, um ou outro sorriso tímido, até que alguém, que creio bêbado, conquista o microfone, prestigiando-nos com atentados ao pudor, que não vêm ao caso.
Aquele canto cru do coco, escrevendo de novo a história, era muito bonito.
Na dança, as canelas, agora pretas de lama, testemunhavam o heroísmo de aquele coco cruzar os temporais e o tempo, e ainda estar ali.
A chuva. O rodopio das saias molhadas. O mar, lá longe, completava o côro das velhas. O toró áspero em cima da gente e a gente embaixo de um pedaço de lona furada que a prefeitura arrumou.
Minha alma, meu pé, ali. Na lama. Uma lama tão preta, como pretos eram os pés e braços que, no meio da noite, insistiam em dançar e tocar cantigas antigas de cocos de roda.
Longa Vida ao Som Barato Outubro 21, 2008
Posted by Pablo in Crítica.add a comment
Puto com o fato de ver o Som Barato, meu blog musical predileto, cassado do ar por disponibilizar material fonográfico gratuita e diariamente na rede, em apoio, enviei pro email do pessoal do blog esta carta-apelo-por-vergonha-na-cara-das-grandes-corporações.
______________________________
Caríssimos,
O reconhecimento e a valorização da diversidade cultural estão ligados à busca da solidariedade entre os povos, à consciência da unidade do gênero humano e ao desenvolvimento dos intercâmbios culturais. Os processos de globalização e/ou mundialização, caracterizados pela rápida evolução das tecnologias da informação e da comunicação constituem hoje desafios para a preservação e promoção dessa diversidade, criando condicionamentos e ameaçando o diálogo permanente entre culturas, civilizações ou grupos sociais.
Nesse sentido, o Som Barato era meu blog preferido. Baixei mais de 300 cds só dessa fonte e posso dizer que o desapego a interesses financeiros do blog só reforça sua feição educativa e seu intuito de propagar aos desprivilegiados, que não têm o direito ao acesso, as benesses da nossa cultura (que é nossa e não de uns só). É claro que os responsáveis pelo blog não tinham outro intuito que não o de contribuir com a nossa cultura, resistindo à uniformização cultural global.
É preciso pensar na propriedade à luz de sua função social, conforme dispõe o próprio artigo 5º da Constituição, e interpretar a Lei de Direitos Autorais (Lei 9610/98) contextualizada ao que determina o artigo 215 da CF, que ora transcrevo:
“Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais.
§ 1º – O Estado protegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.
(…)
§ 3º – A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual, visando ao desenvolvimento cultural do país e à integração das ações do poder público que conduzem à:
I – defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;
II – produção, promoção e difusão de bens culturais;
III – formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múiltiplas dimensões;
IV – democratização do acesso aos bens de cultura
Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;
V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”
Manipulação Outubro 20, 2008
Posted by Pablo in Crítica.add a comment
A repórter: Eu gostaria de fazer uma entrevista com um representante da banda, pode ser?
Eu: Pois não. Eu sou o violonista.
A repórter: Então, ótimo. Você acha importante esse tipo de evento que a Prefeitura por meio da Fundação Cultural X está promovendo?
Eu: Veja bem. Numa cidade como a nossa, onde os espaços são escassos, as autoridades se preocupam mais com sua promoção pessoal, objetivando em primeiro lugar novos mandatos e os atalhos estão sempre dirigidos a um número ínfimo de beneficiários (e com a cultura não é diferente), é importante que se abram espaços onde outros grupos, que estão fora do circuito possam aparecer. Isso porque tem muita coisa boa sendo feita, mas sem que por isso lhes venha sendo dada a devida visibilidade.
A repórter: Então, você acha importante esse tipo de evento?
Eu: Eu acho que a Fundação Cultural X deveria deixar dessa besteira de contratar Reginaldo Rossi por R$50.000,00 pra ele cantar músicas sem conteúdo e passar a adotar um caráter educativo nos eventos em que ela aplica dinheiro público. A meu ver, é a proposta desse evento que nós, comunidade do bairro, estamos nos empenhando em realizar.
A repórter: Ah! Então, você acha importante o evento em si, não é? É importante porque abre espaços…
Eu: Olha só…
A repórter: Desculpa te cortar. Eu queria pedir pra você responder logo porque eu tenho que falar com o pessoal de outra banda, tá bom?
Eu: Você quer que eu responda o quê?.
A repórter: Se você acha importante ou não o evento em que você vai tocar.
Eu: Ah, mas eu ainda não respondi? Pois eu acho que a Prefeitura devia investir mais o dinheiro público em projetos verdadeiramente públicos. Como esse… Não em projetos privados, como vez por outra acontece, sem muita responsabilidade ou preocupação social. Além do que esses cachês são bem próximos da miséria, tá sabendo? Mas o evento em si eu acho importante, sim.
A repórter: Pronto… Obrigado, viu? Agora você vai tocar né? Boa sorte lá.
Eu: Valeu.
A publicação ficou mais ou menos assim: O violonista Pablo, do grupo Mulambo Acústico, diz que acha importante o evento patrocinado pela Prefeitura da cidade, por meio da Fundação Cultural X, no intuito de abrir espaços para novos grupos mostrarem sua face ao público.
Só esclarecendo… Deve ser outro violonista, meu xará, numa banda homônima da minha… Porque eu mesmo é que não disse isso…
O Impacto da Indústria Cultural nas Relações Afetivas do Homem Contemporâneo Setembro 25, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Crônica.2 comments

- Amorzinho…
- Oi?
- Amanhã eu vou pra um forró. Você quer ir comigo?
- Não, obrigado. Tenho muito o que estudar. Mas vá com Deus.
- Eu vou mesmo! Os mortos que fiquem.
No outro dia, os mortos ficavam e lá ia ela, revoltada, pro seu show de forró. Quando voltava, a conversa prosseguia:
- Eu dancei com uns quinze caras hoje…
- Mais alguma coisa que eu precise saber ou eu posso continuar estudando?
- Amanhã tem outro. E eu quero ir.
Aqui liga-se o piloto automático da conversa.
- Então vá.
- Mas os rapazes ficam pensando que eu sou solteira…
- Então não vá.
- Mas eu quero ir…
- Então vá…
- Eles vão dar em cima de mim, criatura… Será que você não entende isso?
- Então não vá!!! Sei não… Mulher é cheia de dúvida…
- Eu quero é que você vá comigo, seu desgraça!!! (às vezes ela usava o termo “desgraça” pra dar voz ao desprezo que jazia em seu peito… mas ela era gostosa e isso é o que importa, não é?).
- Eu já expliquei mais de quinhentas vezes, mas vou tentar ser mais explícito nesta oportunidade. Veja bem, minha flor. Eu, particularmente, não tenho nada contra o forró. Na verdade, eu sou fã incontestável de Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Toinho de Alagoas, Zé do Norte e da Banda de Pífanos de Caruaru. Tenho minhas ressalvas com os trios de forró-pé-de-serra, porque eles – todos eles! – repetem em plenos dias de hoje o que Luiz Gonzaga fazia há 40 anos atrás… Mas ainda assim, gosto. Com ressalvas, mas gosto. Agora, só aqui pra nós, belezura… forró-de-plástico não tem a menor condição, minha santinha… Aquilo lá é um xenhenhém, um Afeganistão… e, sinceramente, eu não piso naquele bangue-bangue enquanto baterista e sanfoneiro não fizerem as pazes…
Aí o mundo desabava:
- Você não me ama não… Se você me amasse, você me acompanhava pra onde quer que eu fosse…
- Você chega a cada conclusão, viu?
- Podia ser pro inferno…
- É o caso…
- Ama não…
________________________________________________
“Mas há quanto tempo dura essa discussão indefinida e sempre nova? O que fazer? O que pensar? Por quê? Como? Dia após dia renasce essa obsessão, sempre fatigante e vã. Dia após dia recomeça esse gosto de febre na boca, essa tristeza no coração, essa fatiga de corpo sonolento. Mesmo que se encontrem respostas para essas perguntas, surgirão outras, exatamente iguais, num carrossel implacável. A verdade é que no presente árido não há mais nada para amar nem para pensar… Falamos do amor como falam as pessoas que já deixaram ficar a vida para trás…”. (Simone de Beauvoir)
Se as noites envelhecessem. Julho 5, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Poesia.add a comment
Se as noites envelhecessem
Manoel Caixa D’Água
“Se as noites envelhecessem,
se os meus olhos cegassem,
se as fantasmas danças
em blocos de neve
para que me ensinassem o caminho
por onde eu caminhei.
A cidade sem porta, as ruas brancas de
minha infância
que não voltam mais.
Se minha mãe se abruma,
se o mar geme,
se os mortos não voltam mais,
se as matas silenciosas
não recebem visitas,
se as folhas caem,
se os navios param,
se o vento norte
apagou a lanterna,
eu tinha nas minhas mãos somente sonhos.
Eu tinha nas minhas mãos somente sonhos!”
¹Manoel José de Lima
* João Pessoa, PB – 1931 d.C
+ João Pessoa, PB – 28 de Março de 2006 d.C
Poeta popular, cordelista, cantador e repentista. Considerado ao lado de Zé Limeira um dos mais importantes nomes do surrealismo poético brasileiro.
(Fonte: http://mesquita.blog.br/versos-na-tarde-manoel-caixa-dagua).
Almada Negreiros Julho 1, 2008
Posted by Pablo in Crítica.add a comment
De volta ao Paleolítico. Junho 3, 2008
Posted by Pablo in Crítica.2 comments
Já que faz o maior tempão que a inspiração não bate pra eu escrever por aqui, resolvi, então, falar de sexo, porque – sabe como é, né? – ninguém precisa de inspiração pra falar sobre o tema. Depois de tocar com o Mulambo Acústico no Dia da Prostituta, a convite da galera da Agência Ensaio (http://www.agenciaensaio.blogspot.com), falar de sexo é quase inevitável. Mas falemos também de História, já que, claro, ninguém precisa abdicar da cultura só porque vai lidar com os instintos mais intensos e profundos do corpo e da alma.
A questão a ser debatida é a seguinte: a sexualidade convencional serve de estrutura celular à sociedade capitalista? Sempre achei esse tema altamente interessante. Discorramos sobre ele.
No início, um pouco depois de deixarmos de ser macacos* pra virarmos essas coisinhas bonitinhas que somos hoje (ou, para os criacionistas, um pouco depois de o espírito do Senhor parar de pairar sobre as águas), e um pouco antes de descobrirmos a escrita, passamos pela era que se convencionou chamar de Pré-história. Como sabemos, esse período se subdivide em Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais, cada qual com características próprias da evolução da humanidade e, obviamente, da sexualidade humana.
Além do fato de que o fogo e a roda, ainda hoje são usados metaforicamente com conotações sexuais (piadinha infame!), o Paleolítico tem uma importância muito maior do que se pensa para a compreensão da sexualidade do ser humano. Segundo os historiadores e os sexólogos, naquele período, a experiência sobre como os instintos reprodutivos eram percebidos pela sociedade operava de forma bem diferente da atual, em vários aspectos. Primeiro porque o homem era nômade e sua vida estava inteiramente submetida às vicissitudes da natureza. Em virtude disso, não existiam as famílias nos moldes que temos hoje: pai, mãe e filhos. Tal estrutura sucumbiria à primeira intempérie natural. Os homens se aglomeravam em grupos maiores, ditos clãs. O sexo era feito entre indivíduos pertencentes ao mesmo clã e, na família, apenas a figura da mãe era conhecida – não a do pai, (até porque o pai podia ser qualquer um do clã, já que inexistia a monogamia como princípio). Na verdade, a participação reprodutiva masculina ainda era ignorada e só viria a ser observada mesmo, com a sedentarização do ser humano, a partir do Neolítico.
Por causa da inconsciência do papel masculino na reprodução, diversos pontos podem ser observados a respeito da vida humana àquela época. Em especial, o fato de que se tratavam de sociedades matriarcais, em que – diferentemente da sociedade que se levantou a partir da Idade dos Metais – a mulher ocupava posição social central. Isso se deu, sobretudo, porque sua figura fora diretamente associada à da fertilidade e da prosperidade, conceitos essenciais a quem dependesse diretamente da natureza para sobreviver.
Desconhecida a contribuição masculina no processo de reprodução, o qual era percebido como algo extremamente valioso, até porque filhos certamente eram bênçãos quando se necessitava da vida em grupo para garantir a vida no mundo, ainda se pensava o procriar como um fenômeno espontâneo. Consequentemente, a mulher era compreendida como um ser divino, uma dádiva à humanidade, por, inexplicavelmente, ser capaz de gerar filhos e prover a manutenção da espécie.
Daí porque inexistirem relatos de pesquisadores que tenham encontrado deuses do sexo masculino que datem dessa época. Talvez até houvesse, mas certamente a presença feminina no ideário metafísico era absolutamente predominante. A imagem das mesmas – tal qual a da Vênus de Millendorf – provavelmente admiradas e desejadas àquela época, era bem diferente da imagem que hoje se valoriza e se tem como o padrão de beleza tão conveniente à indústria de cosméticos. Aquela deusa, esculpida em pedra, possuía algumas porções extremamente volumosas de gordura na pele, inclusive nos seios, vulva e barriga, de onde se crê sua estreita relação com a fertilidade, sendo muito provável, inclusive, que sua forma representasse o sentido estético predominante ao homem pré-histórico. Uma mulher corpulenta, forte e que representasse segurança à preservação da prole.
Tal qual os demais mamíferos de médio porte, é presumível que o ser humano fosse também poligâmico, uma vez inexistente a estrutura familiar no formato que hoje conhecemos, e que eventualmente desse razão à monogamia.
No entanto, é a partir do momento em que o homem abandona a vida de nômade e estabelece morada em determinado ponto territorial que passa a exercer o domínio da agricultura e da pecuária, determinando-se definitivamente a propriedade como base das sociedades humanas. É provável que tal fato tenha se consolidado de forma aproximadamente simultânea em vários pontos do mundo. Em certos lugares mais cedo, noutros mais tarde, mas a tônica é que a procriação sempre tendeu a servir à necessidade da defesa do patrimônio do clã diante das ameaças por parte de outros grupos humanos. A figura do macho, entretanto, que até então ficara relegada a um segundo plano, passa a se colocar como essencial à sociedade que se levanta, sobretudo em função da força física para proteção da propriedade – atributo que a natureza não proviu à figura feminina.
O Neolítico é o período em que o homem fixa-se num determinado território e sua sobrevivência é assegurada pelo domínio da agricultura e da pecuária. É provavelmente em virtude das práticas pastoris, a partir da observação dos animais domesticados, que o homem se vê co-autor da reprodução. O carneiro cobria a ovelha e depois de algum tempo o rebanho era infestado de carneirinhos e ovelhinhas. O boi dançava o créu na velocidade cinco com a vaca e eis que surgiam os bezerrinhos. Essa descoberta foi determinante para o declínio da sociedade matriarcal.
Com a Idade dos Metais, a descoberta de materiais aptos à guerra coloca o homem como foco central da sociedade e desloca a mulher a um posto secundário. Não coincidentemente, é deste período que se vê a sedimentação da propriedade privada como fulcro da sociedade e a curva da acumulação do capital toma feições exponenciais.
Analisando a sociedade atual, creio que caminhamos para o retorno às estruturas primitivas. Embora permeada de traços antagônicos, típicos de sociedades em transição, a nossa é uma sociedade em que a figura feminina, com a descoberta da pílula anticoncepcional, com a reafirmação social e sexual da mulher (elas também querem ter orgasmo!), com a independência financeira, e mais com o simbolismo que é o culto à imagem da fêmea nas tevês e revistas (muito embora distorcida pelo já arcaico olhar patriarcalista e consumista que guia os meios de comunicação), assim como a decadência de tabus como virgindade e adultério, já é visível um outro rumo para a sexualidade contemporânea.
Fica a proposta para as mulheres que ousarem escrever um outro horizonte: não devem existir sexos opostos. E se a gente brincasse de sexos complementares?
________________________
* Errata: para a teoria evolucionista de Darwin, o homem não é descendente direto do macaco; apenas possui um ancestral em comum.
Idéias extraídas, essencialmente do livro A Cama na Varanda, de Regina Navarro.
31/03: Aniversário do Golpe Militar Abril 1, 2008
Posted by Pablo in Crítica.add a comment
Brasil: nunca mais. (Petrópolis: Vozes, 1985. Arquidiocese de São Paulo).
A assistente social Ilda Brandle Siegl, de 26 anos, declarou em seu depoimento no Rio, em 1970:
[...] que disseram a ela que a tortura ali era científica, não deixava marca; que foi espancada e despiram a depoente e provocavam choques elétricos; que, enquanto um aplicava choque, o Dr. Mimoso abanava a depoente para que a mesma não desmaiasse; que havia pausa a critério do médico; que aplicaram choques nos seios, no umbigo e na parte interna das coxas; que, após, foi jogada numa cadeira, já que não podia ficar de pé; [...].
[...] a estudante Iná de Souza Medeiros, de 21 anos, contou ao Conselho de Justiça: [...] que após, trouxeram Milton despido, pendurado no pau-de-arara, para que a declarante visse o seu estado e dizendo que com ela, fariam a mesma coisa e, constantemente, os torturadores proferiam nomes contra Milton a declarante; [...] que essas molas levaram ferro na unha, choque elétrico e tentativa de afogamento que consistia em tapar o nariz da pessoa e jogar água em cima; [...] .
Blogs à Meia-Noite. Março 21, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Crônica.9 comments
Não é meia-noite ainda, mas hoje a reflexão chegou mais cedo.
Como se não tivesse nada mais para fazer (e olhe que tenho!), fico a passear pelas palavras de amigos e de estranhos por entre blogs ligados a blogs de amigos e estranhos. Praticamente sem querer, filosofo. Pensava em refletir sobre a palavra, a linguagem, seus limites e suas potencialidades, mas desengana-me a temática. Prefiro trocar de assunto; estou tão libertário hoje. Não vamos falar em prisões.
Para azar das minhas tantas ocupações, por hoje o passarinho de minh’alma me transportou para entre músicas, poesias, crônicas e fotografias virtuais. Hoje fui longe. Ligando-me a tudo isso, os novos parceiros da meia-noite: os blog’s.
Depois de horas diante da tela do computador, percebi que fiz mais do que simplesmente manusear mouse e teclado. Explorar a rede é participar do mundo. É construir, criar, criticar, surpreender-se com o homem, decifrar esfinges, rever posições. Mais ou menos como vestir aquele sempre guardado e adiado para mais tarde chapéu de Indiana Jones e sair a explorar pirâmides, ilhas, cavernas e, mais que tudo, devorar tribos inteiras.
Pulo por entre versos. E vago saudável e irresponsável atrás do nada, perdido no buraco negro do conhecimento. Procuro apreendê-lo mais a fundo, mas sei que a poesia maior do mundo está muito mais em tocá-lo com as mãos e sentir de perto o seu bendito e maldito cheiro de gente.
Mas o cheiro de gente ainda está por aí, na rede, em algum lugar.
(A propósito, a frase mais bonita de Lenine: “Se a rede é maior do que o meu amor, não tem quem me prove“).
Cá na internet, parece que existe uma espécie de entrelaçar virtual que cria pontes e religa culturas, que por si sós, já se ligavam de antes, pois se cruzaram nalgum momento da História. Porém, agora se cruzam de novo, e recruzam, multiplicando possibilidades.
Claro que falo isso com algum cuidado para não parecer que o mundo globalizado é lindo. Hoje não me encontro lá muito apaixonado pelo ser humano. Hoje quero mesmo é que a humanidade se exploda, ora. Não venho exaltar as benesses do mundo global e esquecer que com base no individualismo que lhe dá substância se pode explicar a indigência daqueles que, minutos atrás, estavam a dormir em minha calçada, enquanto deixava meu computador em espera pra ir ali comer um cachorro-quente, no mundo real. É nesse mundo concreto que a fome mostra o rosto.
Apesar de tudo, ainda acho que a essência própria da rede, sua cor, seu sentimento se situam um tanto distantes do estranho lado perverso do homem de carne e osso.
Por aqui só aflora o que é belo.
Ao menos virtualmente, quase não existem mais distâncias físicas e sociais. Aparentemente todos podem chegar onde querem.
Recentemente, meu irmão e eu fizemos um mapeamento de blogs de música alternativa, a lista dos quais adiante repasso aos interessados. Por acaso, deságuo num blog sobre a discografia completa de Violeta Parra. Mais à frente, revejo um blog antigo de world music, de que nem lembrava mais. Democracia? Não, enquanto houver fome, mas meu lado libertário insiste para que eu creia nela mais perto.
Aliás, como disse Chico César, noutra oportunidade, quando ela chegar, “não esperem espetáculo, festinhas de lançamento, tititi, roupinha da moda, videoclipe, óculos de ciclista. Não há tempo, dinheiro, gente nem vontade de fazer essas coisas”.
Sempre pensei longínquo o dia do acesso pleno às culturas de todos os povos. Certamente, naquele dia tão distante, cantariam bem alto nas rádios – para além da feia música americana imperialista – também os sons alternativos, que se fazem no Peru, Nicarágua, Bolívia, El Salvador, Mali, Nigéria, Bósnia e Afeganistão, e também os que fazemos nós, com nossa cara e que, entretanto, desconhecemos.
Hoje vi que preciso repensar a crítica. Talvez o tempo da democracia cultural esteja mais próximo do que eu pensara. Obsoleto, eu é que ainda não tinha me dado conta. Concentrados os meios de comunicação massiva, em mãos promíscuas, precisamos tratar de providenciar formas outras de democracia. Formas nossas.
Formas e não fôrmas, galera: não vamos falar em prisões.
_________________________
A LISTA. Dicas para pesquisar. Vá baixando os CD’s disponibilizados, aleatoriamente, e se deixando encantar.
Se possível, compre um HD maior…
1. Um que tenha: http://umquetenha.blogspot.com/
2. Brazilian Nuggets: http://brnuggets.blogspot.com/
3. Cápsula da Cultura: http://www.capsuladacultura.com.br/blog/
4. Buena Musica Social Blog: http://buenamusica-blog.blogspot.com/
5. Perrerác: http://perrerac.blogspot.com/search/label/Inti-Illimani
6. Violeta Parra: http://discosvioleta.blogspot.com/
7. Eu ovo. http://euovo.blogspot.com/search/label/S%C3%A9rgio%20Sampaio
8. Música Social: http://musicasocial.blogspot.com/
9. JazzyMusic: http://jazzymusic.org/
10. Bolacha Sonora: http://www.bolachasonora.blogspot.com/
11. Abracadabra: http://www.abracadabra-br.blogspot.com/
12. Terrorista Dub: http://terroristadub.blogspot.com/
13. Vila de Patos: http://www.viladepatos.blogspot.com/
14. BR-Instrumental: http://br-instrumental.blogspot.com/
15. Fonalidade Secarrão: http://www.fonseca-nordestinismo.blogspot.com/
16. Durango: http://durango-95.blogspot.com/2006/07/byografia-vitor-ramil.html
17. Feijão Tropeiro: http://feijaotropeiro.blogspot.com/
18. Penca de Discos: http://pencadediscos.blogspot.com/
19. La Cofradia: http://aguantelacofradia.blogspot.com/
20. Música Paraense: http://www.musicaparaense.blogspot.com/
21. Som Barato: http://www.sombarato.org
22. Babe(B)logue: http://babeblogue.blogspot.com/
