A Noite da Beleza Negra – 18/06/09 Junho 3, 2009
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Debate: A Importância do Fortalecimento de uma Identidade Negra como Resistência à Opressão Cultural
No caminho do mercadinho. Dezembro 17, 2008
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No caminho do mercadinho, mais uma cena hilária com a dona Marocas, que está devendo trinta anos à cova, mas ainda tem algum dinheiro no banco. Aliás, dinheiro esse que terminou lhe rendendo um prestígio ímpar no culto religioso a que freqüenta e um fogoso namorado quarenta anos mais novo. A cena hilária, contudo, não foi na reza nem no amasso. Foi com seu amarelo e simpático vira-lata, que depois de anos de uma religiosa e casta obediência, decidiu reivindicar seus direitos à lubricidade.
- Agora você quer entrar, né? Hein? Hein?
Pra que aquela insistência no “hein”? Ela queria o quê? Que ele respondesse? Quero entrar sim, dona Marocas. Aproveite e, quando vier, traga um bocado daquele bife velho e oleoso que a senhora fritou no almoço e que, se tivermos sorte, vai cumprir a funesta missão de entupir nossas veias mais ligeiro do que nós pensamos. A senhora não tá vendo que tá arriscando chover, não? Abra logo essa porta que eu estou mijando-me.
- Você foi fazer o quê no meio da rua? Eu não disse pra você não ir?
Aquela velha era mesmo uma metida. Eu falo alguma coisa quando aquele motoqueiro fedorento aparece e leva a senhora na garupa, por acaso? Se eu fui passear foi porque eu quis, varei. Pra sua informação, eu estava ali na esquina, conquistando corações. Agora vai ser assim, minha cara. Se eu quiser sair de novo, a senhora vai me desculpar, mas eu vou sair e em todo o planeta Terra não tem carrocinha ou cidadão que me segure dentro de casa. Eu tou me mijando, mulher. Abra essa bexiga dessa porta! Eu vou fazer aqui no terraço mesmo, viu? Depois que a catinga ficar pegada no tapete não vá botar a culpa pras visitas na minha “incontinência urinária”.
- Você devia dar mais valor ao que tem…
Ao que eu tenho? Metida e desorientada. Depois que o motoboy apareceu, adeus vida boa. Vou mijar, viu? Já tá avisada. E também não sei pra que tanta cerimônia… Ela é uma cachorrinha decente, de família. Fiel que só vendo. Tem outra coisa. A senhora não pense que eu já me recuperei daquela concupiscência que eu vi vocês dois fazendo no escuro da noite, lá no quintal de casa não, viu? A senhora!… Nessa idade!… Essa casa parece que virou Sodoma e Gomorra. Em tempo de passar alguém da igreja e pegar a sem-vergonhice de vocês no flagra… Nã. Dê-se ao respeito… O orelhudo que vai todo dia pro mercadinho comprar biscoito já notou, viu? Se eu fosse ele, ligava pra polícia…
- Nessa casa você tem de tudo, cachorro inconseqüente…
De tudo? Metida, desorientada e ainda por cima doida. De tudo não, que aqui eu não tenho uma namorada…. Tou mijando, viu? A senhora demorou pra abrir a porta…
Dialogar com ela não era mesmo uma alternativa nunca, porque ela não entendia nada. Parecia que estava gagá. Será que era isso mesmo? Devia ser. Gagá da silva. Dona Marocas Gagá da Silva, a loucura em pessoa.
- Qualquer dia eu resolvo dar um fim em você e aí você vai ver quem é a verdadeira dona Marocas, seu ingrato.
O cachorro olhou para a dona Marocas com a nobreza de um conde. Ele sabia que ela ameaçava, ameaçava, mas tinha o coração mole. No entanto, aquilo estava muito errado. A dona Marocas pode namorar, todo mundo pode namorar, menos o pobre do cachorro? Por quê? Ele era jovem. Só porque ele é um cachorro não pode namorar? Ah, não. Isso ia mudar dali pra frente.
- Na próxima vez que você mijar no terraço, você apanha, tá ouvindo?
Vai te catar, dona Marocas. Cadê o bife?
Sento na bicicleta. Dezembro 17, 2008
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Sento na bicicleta, reparo algumas coisas. A academia tem uma etiqueta social própria. Você espera ela passar. Tá entendendo? Se precisar, dá um boa noite, pra ela pensar que você tem educação. Ela não precisa responder, nem está ali pra isso. O boa noite não faz parte da etiqueta. Se ela responder, ótimo, mas o importante vem depois. Quando ela passa… As academias são dádivas do Senhor. Mas também têm os seus esconjuros, ou você acha que Deus é besta pra conceder alguma graça assim, de graça? Na academia, você pode olhar pra bunda dela, sem problema, afinal aquilo é uma academia, e pra isso sim é que ela está ali. Mas se quiser olhar, tem que ser pelo espelho, camarada, que nem ela nem o próximo percebem, entendeu? Na academia, pra cobiçar a mulher do próximo, tem que ser pelo espelho ou verás o furor da ira do próximo. Aliás, toda academia que se preze tem que ter espelhos suficientes pra garantir que você não vai perder nenhum ângulo, nem se machucar por causa de luxúria. Um magrinho novato desavisado, outro dia, foi seduzido e não esperou ela passar pra contemplar os seus glúteos torneados e curvilíneos. Essa “ela” não tinha um “ele” a vigiar a vigilância masculina da academia. O magrinho não apanhou, mas o resultado não podia ser mais trágico. A partir de então, todo santo dia, por cautela, ela passou a levar uma toalhinha maldita que lhe cobria as nádegas e durante meses, acabou com a alegria de toda a academia. Por isso é que as pessoas precisam respeitar os preceitos de direito consuetudinário. Por isso é que as regras da etiqueta são tão importantes e não podem ser descumpridas nunca. Que trabalho que me deu roubar aquela toalha!
Aprisco. Dezembro 17, 2008
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Você ligou. Ela não disse que não. Que sim, muito menos. No entanto, o não seria a resposta para agora. Ela não está preparada. Mas o sim não tarda. Como é que você sabe? Sabe porque sabe. Do não a gente aprende a escapar na malícia que o prego aprende a driblar a martelada do martelo. A voz diz quase tudo. Do tom de voz, você sabe que ela está com ele. Ela quer ficar com você. Você sabe que ela quer ficar com você porque você viu isso no apetite dos olhos dela, outro dia, olhando pra sua coxa branca. Você aproveitou que ela não estava olhando e deu aquela conferida pra ver se os peitos dela ainda estavam chupáveis. Estavam. Não há dúvida. Ela quer. Ela pensa que você não sabe. Ou, pior, ela pensa que você não quer. Você quer, mas compromisso é coisa pro pascácio titular oficial das atribuições de namorado dela. Você só quer o melhor lado dela. Andar de mãos dadas é com ele. Você ligou pra ela. Ela atendeu. Quase não lembra de você. Mentira. A voz sempre denuncia. Ela titubeia. Você não dá corda. Você fala besteira. Da vida. De dinheiro. Dos amigos. De algum livro, cantor ou qualquer outro artifício retórico para o amor fácil com a mulher dos outros. O homem solteiro tem que optar entre o escrúpulo e sua vida sexual. Você não optou pelo escrúpulo. Ela pensa no namorado. É um bom rapaz. Você não pensa nele. Pensar é pressuposto de não fazer. Ela quer fugir. Quase desliga na sua cara. Não vê razões para isso. Você só está conversando, como um amigo, como um leal amigo, pra falar da vida, do cansaço, do pesar de estar vivo. Você é um amigo leal. Só está ligando porque tem saudade. Não é uma saudade carnal. É uma saudade de amigo leal. Pelo menos, é o que você diz. Você está ligando com a lealdade que um cachorro ligaria pro seu dono que saiu pro trabalho. Isso é o que você diz. Na verdade, na verdade, o cachorro está ligando pro pedaço de carne.
SANGUE. Dezembro 17, 2008
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Quinze anos atrás, participara eu como protagonista de um dos pleitos mais importantes de minha vida. Preconceituoso que sou – e (podem acreditar!) era àquela época ainda mais, embora hoje me atreva a tentar não sê-lo tanto – terminei, num desses deboches da vida, por ser, vejam vocês, ator determinante de uma trama que culminou com a ostentação eleitoral de um jovem de minha turma que… digamos assim… era… enfim, ele era fresco. Já no presente, olho pra trás e só ironias consigo enxergar, tendo em vista que o acaso me fez tão crítico à democracia representativa.
Confesso que naquele tempo, meus gracejos em sala de aula, quando não detalhavam um imaginário envolvimento amoroso com a mãe de algum dos traiçoeiros colegas – que também não hesitavam em atribuir horrores à minha imaculada genitora -, limitavam-se a pulverizar homofobia pelos cantos da escola. Prática das mais comuns no meio social em que eu adolescente me via envolvido.
Deu-se que, em uma dada oportunidade, um veadinho qualquer do colégio me dera uma bela duma surra. A razão, deveras, não recordo. Talvez por causa do lanche, talvez porque eu fosse uma gracinha, não sei. Sei que apanhei e foi feio. Ali aprendi que um veadinho qualquer do colégio também pode muito bem partir sua cara no meio. Sem quebrar a unha, lógico.
Mas, vejam só que situação a minha! Se levar um cacete em plena sexta série já era degradante e podia determinar o fracasso histórico de alguém, apanhar de uma bichinha, então, talvez fosse pior que ser a própria bichinha.
Arquitetei, pois, um plano maquiavélico que bem me poderia render o Nobel da piadinha. Aproximavam-se as eleições pra representante de turma e lá vai minha vingativa campanha em santinhos espalhados pela escola:
VOTE DAGOBERTO: O HOMEM QUE NÃO DEU CERTO. A FORÇA DA MULHER BRASILEIRA!
A bichinha chorou tanto que quase fui expulso da escola. Com as mensalidades em dia, todavia, meu pai conseguiu convencer a diretora de que aquilo era apenas coisa de um moleque perturbado pela puberdade e que o caso não merecia qualquer atenção especial. Escapei ileso da empreitada.
O resultado daquela investida publicitária, contudo, foi surpreendente. Graças a mim, (como eu sou idiota!) elegeu-se meu inimigo capital, ovacionado e carregado nos braços do povo, já com o sorriso estampado em seu rostinho gay. Uma bichona, representando um bando de alunos que não desperdiçávamos uma oportunidade para humilhá-lo e agredi-lo. Eram oxímoros demais para uma turma de sexta série só. Mas o fato é que lá estava Dagoberto, presidente da turma.
Fiquei obviamente revoltado com o desfecho da história. Ainda pensei em juntar uns amigos, machos como eu, e arrebentar com aquele veadinho dos infernos. Mas não o fiz. Não sei por que, mas resolvi perdoá-lo. Talvez por causa de suas unhas grandes…
Passou-se o tempo e, por esses dias, li no jornal notícias suas. Prostituía-se em algum ponto da cidade, quando foi abordado por adolescentes de classe média, apedrejado e espancado até a morte.
- Não, pai. A puberdade não explica nada. É que as piadas terminam aqui.
Coco de Roda – Zé Sabino (Lucena – PB) Dezembro 2, 2008
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[Na véspera desse registro que fizemos com o Coletivo de Cultura e Educação Meio do Mundo, estivemos em um coco na cidade de Lucena].
Chovia muito.
Cruzamos o mar a balsa e chegamos a tempo de assistir a festa da igreja.
Chovia mesmo. Eu lembro. Tinha um cachorro molhado, que olhava espantado pro coco. Não perdia um passo. Era o mais atento à dança.
Eu ainda pensei em explicar pra ele de que se tratava. Que aquilo é o coco e aquelas pessoas cantam o que cantam desde que nasceram. Que elas aprenderam com seus pais, que aprenderam com os seus. Não expliquei. Talvez ele nunca entendesse, como muitos paraibanos também não entendem.
Quanto àquela dança na lama… É que cultura popular tem disso mesmo.
Mas eu também estava espantado. Eu contei. Eram 28 pés de pessoas que, sem um porquê material, descalças, pisavam e chutavam o preto da lama.
Puxando o coco, um ganzá, dois tambores, dois velhos pescadores. No começo, um ou outro sorriso tímido, até que alguém, que creio bêbado, conquista o microfone, prestigiando-nos com atentados ao pudor, que não vêm ao caso.
Aquele canto cru do coco, escrevendo de novo a história, era muito bonito.
Na dança, as canelas, agora pretas de lama, testemunhavam o heroísmo de aquele coco cruzar os temporais e o tempo, e ainda estar ali.
A chuva. O rodopio das saias molhadas. O mar, lá longe, completava o côro das velhas. O toró áspero em cima da gente e a gente embaixo de um pedaço de lona furada que a prefeitura arrumou.
Minha alma, meu pé, ali. Na lama. Uma lama tão preta, como pretos eram os pés e braços que, no meio da noite, insistiam em dançar e tocar cantigas antigas de cocos de roda.
Meninos do Valentina Novembro 21, 2008
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Lá ia um grupo de meninos, felizes e descalços, cantando, felizes e juntos. Na frente, um branquinho de orelhas quase tão grandes quanto as minhas. Atrás, os demais. Um carequinha, no meio dos que estavam atrás, puxava o côro. Usava um brinco e não tinha dois dentes da frente. Era o responsável principal pela insatisfação de toda a comunidade. A alegria alheia incomoda sempre à mulher da padaria e às feiosas do culto evangélico.
O desafino de vozes e palmas cruzou a esquina e entrou num beco qualquer, de rua de barro.
Ide, meninos do Valentina. Ide, cantando para a vida, que os separará e os humilhará um a um por entre os becos do mundo.
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Rubem Braga é sempre uma inspiração.
O Impacto da Indústria Cultural nas Relações Afetivas do Homem Contemporâneo Setembro 25, 2008
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- Amorzinho…
- Oi?
- Amanhã eu vou pra um forró. Você quer ir comigo?
- Não, obrigado. Tenho muito o que estudar. Mas vá com Deus.
- Eu vou mesmo! Os mortos que fiquem.
No outro dia, os mortos ficavam e lá ia ela, revoltada, pro seu show de forró. Quando voltava, a conversa prosseguia:
- Eu dancei com uns quinze caras hoje…
- Mais alguma coisa que eu precise saber ou eu posso continuar estudando?
- Amanhã tem outro. E eu quero ir.
Aqui liga-se o piloto automático da conversa.
- Então vá.
- Mas os rapazes ficam pensando que eu sou solteira…
- Então não vá.
- Mas eu quero ir…
- Então vá…
- Eles vão dar em cima de mim, criatura… Será que você não entende isso?
- Então não vá!!! Sei não… Mulher é cheia de dúvida…
- Eu quero é que você vá comigo, seu desgraça!!! (às vezes ela usava o termo “desgraça” pra dar voz ao desprezo que jazia em seu peito… mas ela era gostosa e isso é o que importa, não é?).
- Eu já expliquei mais de quinhentas vezes, mas vou tentar ser mais explícito nesta oportunidade. Veja bem, minha flor. Eu, particularmente, não tenho nada contra o forró. Na verdade, eu sou fã incontestável de Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Toinho de Alagoas, Zé do Norte e da Banda de Pífanos de Caruaru. Tenho minhas ressalvas com os trios de forró-pé-de-serra, porque eles – todos eles! – repetem em plenos dias de hoje o que Luiz Gonzaga fazia há 40 anos atrás… Mas ainda assim, gosto. Com ressalvas, mas gosto. Agora, só aqui pra nós, belezura… forró-de-plástico não tem a menor condição, minha santinha… Aquilo lá é um xenhenhém, um Afeganistão… e, sinceramente, eu não piso naquele bangue-bangue enquanto baterista e sanfoneiro não fizerem as pazes…
Aí o mundo desabava:
- Você não me ama não… Se você me amasse, você me acompanhava pra onde quer que eu fosse…
- Você chega a cada conclusão, viu?
- Podia ser pro inferno…
- É o caso…
- Ama não…
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“Mas há quanto tempo dura essa discussão indefinida e sempre nova? O que fazer? O que pensar? Por quê? Como? Dia após dia renasce essa obsessão, sempre fatigante e vã. Dia após dia recomeça esse gosto de febre na boca, essa tristeza no coração, essa fatiga de corpo sonolento. Mesmo que se encontrem respostas para essas perguntas, surgirão outras, exatamente iguais, num carrossel implacável. A verdade é que no presente árido não há mais nada para amar nem para pensar… Falamos do amor como falam as pessoas que já deixaram ficar a vida para trás…”. (Simone de Beauvoir)
Guerra Santa Agosto 21, 2008
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As coisas caminhavam assim, quando um fato novo quebrou a monotonia da desavença. O poster da Mulher Melancia. Era gritante demais, volumoso demais, pecaminoso demais para ser tolerado por aquelas ovelhas prontas para ruminar nos pastos divinos. Depois do culto da noite, o assunto foi discutido a portas fechadas. Na manhã seguinte, decidiu-se, o pastor iria falar com o dono da borracharia. Ele mesmo se comprometeu a avaliar o teor pecaminoso do cartaz e exigir sua retirada da parede.
A indignação tomou conta do rebanho. Se a missão de paz não obteve resultado, o borracheiro ia ver o quanto podia a ira do Senhor manifestada em seus servos. No outro dia de manhã, toda a congregação estava presente, excitada pela voz estridente do pastor, pronta para invadir a borracharia e expulsar de lá o demônio dos fartos glúteos.
Convocados pelo celular, borracheiros de toda a vizinhança acudiram em defesa do colega ameaçado. Os ânimos se exaltaram. A ocasiões como esta não se ajusta melhor expressão. Definitivamente, os ânimos se exaltaram. Igreja, ataque a borracharia, bradou o pastor. Em resposta, ouviu-se o grito roufenho do inimigo: borracharia, enfrente a igreja.
Os irmãos não tiveram tempo de dar um passo. O borracheiro arrancou o poster da parede, mostrou fervorosamente o seu conteúdo aos valorosos companheiros e avançou com aquela bunda enorme lhe cobrindo o peito em direção ao exército inimigo. Atrás dele, tomados pelo espírito de Thor, armados com seus martelos de borracha maciça, os homens gritavam seu grito de guerra: Créu – Créu – Créu.
A massa de fiéis abriu-se como o Mar Vermelho. Créu – Créu – Créu, avançava o exército igreja adentro. Aleluia, Aleluia, gritavam os irmãos, alucinados pelas formas excessivas da mulher que ondulava ao sabor dos passos do borracheiro. Créu – Aleluia – Créu – Aleluia, gritavam as irmãs, muitas já sem as longas saias, comparando suas bundas com a da mulher do cartaz, fazendo bruscos movimentos de ir e vir com a pélvis, numa cópula frenética com o nada.
Em nome de Deus, tire este demônio daqui. Atirou-se o pastor aos pés do borracheiro. O homem enrolou cuidadosamente o pôster e ordenou a seus comandados: borracharia, abandonar a igreja. Saíram em silêncio, mas sem esconder um ar triunfante. Atrás deles, os irmãos tentavam cobrir as vergonhas de suas mulheres que acordavam do transe ainda aos estertores.
No culto seguinte, o pastor teve trabalho para botar pra dentro da igreja os homens e mulheres que vagavam em frente da borracharia.
Pra não dizer que fui eu quem despetalou as flores. Julho 26, 2008
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- Passa lá em casa hoje à noite.
- Você tem cheiro de flor.
Silêncio. Lá longe, o som de meninos brincando.
- Você tem cheiro de flor!
- Você acha isso mesmo ou diz isso pra todas?
- Pode crer.
- Quer dizer que você me ama?
- Quer dizer que eu tenho medo da morte.
- Ah…
- Que foi?
- Bonito…
- O quê?
- Isso. A intensidade do ser, perceber a efemeridade das coisas. O medo da morte é a expressão sublime da alma.
Espanto. Ar de adeus.
- Eu digo isso pra todas…