Blogs à Meia-Noite. Março 21, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Crônica.9 comments
Não é meia-noite ainda, mas hoje a reflexão chegou mais cedo.
Como se não tivesse nada mais para fazer (e olhe que tenho!), fico a passear pelas palavras de amigos e de estranhos por entre blogs ligados a blogs de amigos e estranhos. Praticamente sem querer, filosofo. Pensava em refletir sobre a palavra, a linguagem, seus limites e suas potencialidades, mas desengana-me a temática. Prefiro trocar de assunto; estou tão libertário hoje. Não vamos falar em prisões.
Para azar das minhas tantas ocupações, por hoje o passarinho de minh’alma me transportou para entre músicas, poesias, crônicas e fotografias virtuais. Hoje fui longe. Ligando-me a tudo isso, os novos parceiros da meia-noite: os blog’s.
Depois de horas diante da tela do computador, percebi que fiz mais do que simplesmente manusear mouse e teclado. Explorar a rede é participar do mundo. É construir, criar, criticar, surpreender-se com o homem, decifrar esfinges, rever posições. Mais ou menos como vestir aquele sempre guardado e adiado para mais tarde chapéu de Indiana Jones e sair a explorar pirâmides, ilhas, cavernas e, mais que tudo, devorar tribos inteiras.
Pulo por entre versos. E vago saudável e irresponsável atrás do nada, perdido no buraco negro do conhecimento. Procuro apreendê-lo mais a fundo, mas sei que a poesia maior do mundo está muito mais em tocá-lo com as mãos e sentir de perto o seu bendito e maldito cheiro de gente.
Mas o cheiro de gente ainda está por aí, na rede, em algum lugar.
(A propósito, a frase mais bonita de Lenine: “Se a rede é maior do que o meu amor, não tem quem me prove“).
Cá na internet, parece que existe uma espécie de entrelaçar virtual que cria pontes e religa culturas, que por si sós, já se ligavam de antes, pois se cruzaram nalgum momento da História. Porém, agora se cruzam de novo, e recruzam, multiplicando possibilidades.
Claro que falo isso com algum cuidado para não parecer que o mundo globalizado é lindo. Hoje não me encontro lá muito apaixonado pelo ser humano. Hoje quero mesmo é que a humanidade se exploda, ora. Não venho exaltar as benesses do mundo global e esquecer que com base no individualismo que lhe dá substância se pode explicar a indigência daqueles que, minutos atrás, estavam a dormir em minha calçada, enquanto deixava meu computador em espera pra ir ali comer um cachorro-quente, no mundo real. É nesse mundo concreto que a fome mostra o rosto.
Apesar de tudo, ainda acho que a essência própria da rede, sua cor, seu sentimento se situam um tanto distantes do estranho lado perverso do homem de carne e osso.
Por aqui só aflora o que é belo.
Ao menos virtualmente, quase não existem mais distâncias físicas e sociais. Aparentemente todos podem chegar onde querem.
Recentemente, meu irmão e eu fizemos um mapeamento de blogs de música alternativa, a lista dos quais adiante repasso aos interessados. Por acaso, deságuo num blog sobre a discografia completa de Violeta Parra. Mais à frente, revejo um blog antigo de world music, de que nem lembrava mais. Democracia? Não, enquanto houver fome, mas meu lado libertário insiste para que eu creia nela mais perto.
Aliás, como disse Chico César, noutra oportunidade, quando ela chegar, “não esperem espetáculo, festinhas de lançamento, tititi, roupinha da moda, videoclipe, óculos de ciclista. Não há tempo, dinheiro, gente nem vontade de fazer essas coisas”.
Sempre pensei longínquo o dia do acesso pleno às culturas de todos os povos. Certamente, naquele dia tão distante, cantariam bem alto nas rádios – para além da feia música americana imperialista – também os sons alternativos, que se fazem no Peru, Nicarágua, Bolívia, El Salvador, Mali, Nigéria, Bósnia e Afeganistão, e também os que fazemos nós, com nossa cara e que, entretanto, desconhecemos.
Hoje vi que preciso repensar a crítica. Talvez o tempo da democracia cultural esteja mais próximo do que eu pensara. Obsoleto, eu é que ainda não tinha me dado conta. Concentrados os meios de comunicação massiva, em mãos promíscuas, precisamos tratar de providenciar formas outras de democracia. Formas nossas.
Formas e não fôrmas, galera: não vamos falar em prisões.
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A LISTA. Dicas para pesquisar. Vá baixando os CD’s disponibilizados, aleatoriamente, e se deixando encantar.
Se possível, compre um HD maior…
1. Um que tenha: http://umquetenha.blogspot.com/
2. Brazilian Nuggets: http://brnuggets.blogspot.com/
3. Cápsula da Cultura: http://www.capsuladacultura.com.br/blog/
4. Buena Musica Social Blog: http://buenamusica-blog.blogspot.com/
5. Perrerác: http://perrerac.blogspot.com/search/label/Inti-Illimani
6. Violeta Parra: http://discosvioleta.blogspot.com/
7. Eu ovo. http://euovo.blogspot.com/search/label/S%C3%A9rgio%20Sampaio
8. Música Social: http://musicasocial.blogspot.com/
9. JazzyMusic: http://jazzymusic.org/
10. Bolacha Sonora: http://www.bolachasonora.blogspot.com/
11. Abracadabra: http://www.abracadabra-br.blogspot.com/
12. Terrorista Dub: http://terroristadub.blogspot.com/
13. Vila de Patos: http://www.viladepatos.blogspot.com/
14. BR-Instrumental: http://br-instrumental.blogspot.com/
15. Fonalidade Secarrão: http://www.fonseca-nordestinismo.blogspot.com/
16. Durango: http://durango-95.blogspot.com/2006/07/byografia-vitor-ramil.html
17. Feijão Tropeiro: http://feijaotropeiro.blogspot.com/
18. Penca de Discos: http://pencadediscos.blogspot.com/
19. La Cofradia: http://aguantelacofradia.blogspot.com/
20. Música Paraense: http://www.musicaparaense.blogspot.com/
21. Som Barato: http://www.sombarato.org
22. Babe(B)logue: http://babeblogue.blogspot.com/
O Sexo dos Anjos. Março 3, 2008
Posted by Pablo in Crônica.5 comments
O telefone tocou. Atendi. Era Miguel. Mas Miguel de onde? Do Reino dos Céus, disse ele, com uma voz suave. Estranhei.
De toda forma, convidei-o para me fazer uma visita, afinal de contas não é sempre que o santo arcanjo resolve descer do céu e trocar uma idéia com você, não é verdade? Não sendo de minha laia fazer desfeita com gente importante demais, combinamos um chá.
Pois bem. O anjo do Senhor me apareceu à noite. Ele veio com uma conversa estranha, “darás à luz um filho”… Não disse a ele, mas achei aquela conversa milagrosa demais para o meu gosto. Mas fui dando corda pra ver a que ponto chegaria o mensageiro de Deus.
Ele se aproximou e a intensidade luminosa foi diminuindo até que se me permitiu verificar tratar-se não de um anjo, como supus inicialmente, mas de uma anja.
Aliás, data venia, que anja. Tinha as coxas grossas e a cintura bem delineada, de modo que admirar aquela bela criatura divina apenas com os olhos exigir-me-ia uma resistência exaustiva – em especial porque as vestes no Reino de Deus são de um fino tecido branco tal que pêlos pubianos se apresentam à mostra, sem muito pudor. E eu, que não sei o que é o pecado e não interpreto o catecismo ao pé da letra, olho mesmo e me deleito.
Michele quebrou na minha. O nome masculino me incomodava. Passei a chamá-la com nome de moça. Ela me pareceu entender a mensagem subliminar. A obstinação dos meus olhos a encarar-lhe a cintura deixava nítido que eu ainda era homem. De carne e sangue nas veias.
Tranqüila, ela se deixava fitar.
Considerando que o anjo do Senhor noutras muitas oportunidades já houvera mostrado sua face a tantos outros filhos de Deus, e tendo eu ciência de respeitáveis estudos apócrifos realizados para ajudar fiéis, que, como este privilegiado que vos dirige a palavra, viessem a tecer alguma comunicação com os entes sobrenaturais, a identificarem precisamente quando se tratasse realmente de um anjo e não de um fajuto espírito errante, reparei uma lacuna essencial nos ensinamentos.
Nenhum dos que me precederam houveram feito referência à genitália angelical – não sei ao certo se por medo da repercussão ou se por não saberem bem fazer diferença entre genitálias.
A verdade é que eu senti-me sonegado. Justo eu, um leitor assíduo de revistinhas de auto-ajuda esotérica. Absolutamente logrado. Como, por tanto tempo, puderam omitir à humanidade a informação mais importante acerca da virtude angelical? Os anjos são mulheres! Queria gritar ao mundo inteiro. Mulheres, que se deixam olhar – e tocar.
Engraçado. Nunca cogitara ser tão relevante refletir sobre o sexo dos anjos quanto agora.
Bem sei, caro leitor, que esperas de mim que narre cenas de amor intenso, em que a anja tira a roupa, geme e se entrega perdidamente às carícias deste galanteador barato. Lamento decepcioná-lo. Não tenho autorização para tratar desse mérito. Não que eu tenha esta pretensão tamanha, mas vai que Deus lê esse texto…
Pela sua reputação, bem sei que Ele, conservador que é (deve votar nos Democratas), é bem capaz de execrá-la do paraíso – coisa que, apesar da completa casualidade da relação que mantivemos, não me parece correto condescender. (Na melhor das hipóteses, caso descubra por onde rondara aquela angélica boca, é capaz de proibir a bela entidade de beber do Santo Graal).
Se bem que, quanto a esse terrorismo sexual, duvido muito que não passe de mero estereótipo comercial acerca dEle. Puro marketing. Pelos suspiros de “meu Deus”, em meu ouvido, Michele me pareceu recordar momentos outros de prazer, igualmente sonegados pela história tradicional.
De toda maneira, têm sido outras as palavras do arcanjo que me têm ressoado às noites. “Darás à luz um filho”… Eis aí uma conversa que sempre me atormentou. Eu, grávido.
Todavia, ando despreocupado.
No calor da brincadeira, ela nem notou. Tempos modernos, relações esporádicas: mesmo com anjos, camisinha sempre. Com coisa séria não se pode dar vacilo.
Sabe Deus se ela tinha doença venérea ou ia querer pagar a pensão do menino…
Até que creio em anjos e milagres; não em juras de amor.
Cavalheiros Fevereiro 12, 2008
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Confesso que não tenho nada de cortês. Na verdade, sempre usei o cavalheirismo em causa própria. Pressenti, todavia, que aquela situação pediria um comportamento excepcional.
Duas moças. Seus dezoito, dezenove anos. Talvez vinte. Uma vida inteira pela frente. Tão novas e já cheirando a água sanitária.
Suadas, elas.
Uma delas era feia.
A outra não.
A bonita, magrinha, logo encontrou lugar. A outra, coitada, gorda que só uma porca, mal sustentava o próprio corpo de pé.
Assolou-me uma inusitada comoção ante aquela pobre mulher. A sina da Medusa. Ninguém olhou por ela a vida inteira. Não seria num ônibus lotado que olhariam.
Sentimento estranho aquele. Acaso teria culpa da pobreza da coitada? Não tinha. Então ela que se danasse com a feiúra dela… Estranha mesmo aquela piedade… Não faço idéia de onde veio. Provavelmente da água sanitária. Não… O cheiro da água sanitária não estava incomodando tanto assim. Vai ver, eu é que ando um tanto sensível esses dias. Vou procurar um psicólogo pra me tratar.
Não hesitei, contudo. Aproveitei aquela rara oportunidade de exercitar em público o meu lado bom moço. Não me pareceu oportuno esperar surgir alguém mais cavalheiro que eu, em pleno 1.500, às seis da noite. Muito menos sendo a pobre feia daquele jeito. Cedi-lhe quixotescamente o lugar, perante os protestos nos olhos de todas as moças bonitas que seguiam em pé no ônibus.
Ela me deu um sorriso, quase lindo. Ganhei a noite. Cavalheiros como eu estão cada dia mais raros.
Entretanto, o cheiro forte de água sanitária daquela moça me impregnou a memória e me fez refletir. Deve ser difícil viver de préstimos em casa alheia. Qualquer comportamento fora da rotina, uma reprovação; qualquer sumiço, um olhar de desconfiança; qualquer desavença, o medo do desemprego. Sem contar ainda o salário pouco, que sequer compra comida, quanto mais a beleza exigida pela indústria de cosméticos.
Fiz muito bem em ter levantado. Mais do que ser educadinho, ser homem é levantar nessas horas.
Bêbados. Dezembro 23, 2007
Posted by Pablo in Crônica, Fotografia.4 comments
Tarde da noite e maltrajado, um bêbado me bateu à porta.
Confesso que nunca me dei bem com o álcool. Sempre me revoltou comparar o número de vítimas letais de doenças hepáticas e acidentes em estradas com os índices de lucratividade das grandes empresas exploradoras desse mercado.
Contudo, o mínimo de compreensão do alcoolismo como doença de que padecem os indivíduos, reféns do descontrole total de seus próprios atos, sempre me fez, ainda nos casos mais complicados, respeitar-lhes a dignidade. Não foi, porém, o que sucedeu com o meu visitante.
Ele pedia comida. Certamente morreria engasgado com aquele resto de cuscuz que me sobrava na panela. Mulheres, pouco dinheiro, monografia por fazer: com certeza eu já tinha problemas demais. Não queria ainda responder por tentativa de homicídio. Disse-lhe um “não” tão seco e ríspido que ele, mesmo embriagado, não ousou me incomodar mais.
Aquele pobre alcóolatra semi-cerrou os olhos, baixou a cabeça e engoliu as dores da vida. Na verdade, o silêncio que pairou me disse mais do que poderia dizer qualquer sociólogo. A mim, este imbecil de classe média, a aprender com um bêbado de rua. Estava completamente alcoolizado, é verdade, talvez dormisse na rua aquela noite, mas não preservava a humanidade? Pelo menos foi o que me indagaram seus olhos. Teria família, o desgraçado?
Virou as costas e não me agradeceu. “Bêbados não agradecem”, pensei eu. “Muito menos quando se nega o que eles pedem”. Sorri, diante da mediocridade do meu pensamento. Fechei o portão, antes que ele voltasse.
“E eu vou morrer de fome, doutor?” – não sei se foi o homem ou a minha consciência.
Pablo.