Coco de Roda – Zé Sabino (Lucena – PB) Dezembro 2, 2008
Posted by Pablo in Crítica, Crônica, Música, Vídeo.add a comment
[Na véspera desse registro que fizemos com o Coletivo de Cultura e Educação Meio do Mundo, estivemos em um coco na cidade de Lucena].
Chovia muito.
Cruzamos o mar a balsa e chegamos a tempo de assistir a festa da igreja.
Chovia mesmo. Eu lembro. Tinha um cachorro molhado, que olhava espantado pro coco. Não perdia um passo. Era o mais atento à dança.
Eu ainda pensei em explicar pra ele de que se tratava. Que aquilo é o coco e aquelas pessoas cantam o que cantam desde que nasceram. Que elas aprenderam com seus pais, que aprenderam com os seus. Não expliquei. Talvez ele nunca entendesse, como muitos paraibanos também não entendem.
Quanto àquela dança na lama… É que cultura popular tem disso mesmo.
Mas eu também estava espantado. Eu contei. Eram 28 pés de pessoas que, sem um porquê material, descalças, pisavam e chutavam o preto da lama.
Puxando o coco, um ganzá, dois tambores, dois velhos pescadores. No começo, um ou outro sorriso tímido, até que alguém, que creio bêbado, conquista o microfone, prestigiando-nos com atentados ao pudor, que não vêm ao caso.
Aquele canto cru do coco, escrevendo de novo a história, era muito bonito.
Na dança, as canelas, agora pretas de lama, testemunhavam o heroísmo de aquele coco cruzar os temporais e o tempo, e ainda estar ali.
A chuva. O rodopio das saias molhadas. O mar, lá longe, completava o côro das velhas. O toró áspero em cima da gente e a gente embaixo de um pedaço de lona furada que a prefeitura arrumou.
Minha alma, meu pé, ali. Na lama. Uma lama tão preta, como pretos eram os pés e braços que, no meio da noite, insistiam em dançar e tocar cantigas antigas de cocos de roda.